Desassossego

No negro de minhas vestes eu me exponho ao mundo. Meu mundo… Minha vida… Vida perene, vida de ontens no hoje, mundo de dor ou quase dor. Respiro num ritmo estéril, tenso e rígido como quem espera de olhos vedados pelo tiro. Mundo que não me compreende e que eu não compreendo e não compreendendo, vivo a eterna escuridão das noites. Noites frias, caminhos sem lua, noites que passo no escuro a me buscar. Tem brisa na noite, a montanha e o vento, todos os ventos soprando. Os ventos! Vazio, imobilidade e vazio. Se eu ficasse assim imóvel um instante, sem pensamento, sem corpo, talvez eu me equilibrasse no instável. Equilibrar no instável é assistir um espetáculo com outro cenário.

O mundo continua dormindo, sinto-o no silêncio; silêncio de vozes num rodopio louco de caras e casas inespressivas, com orquestras invisíveis de músicas inaudíveis. A vida dói. Não tenho para onde fugir. Fugir de mim… Eu me escondendo de mim num perder de mundo. Não quero pensar, pois entre mim e a vida há um vidro tênue que não posso tocar e, por isso, vivo enclausurada no meu pequeno espaço, estreito, angustiante, sem saber como sair para respirar o que está fora de mim. Queria ter a leveza de que não tem um fim, de estar continuamente nascendo. E como vivo em estado descontínuo, procuro um ato que me simboliza na solidão de Deus em mim. Estou pensando… Acho que ser só é um estado de ser; é uma forma de existir no só…
Eu penso.

Jornal Interessante, Unaí, Junho de 2010