DESABAFO

Hoje não sei definir o que sinto. Estou em busca das palavras que já nem sei se vão expressar fielmente o meu jeito de estar no hoje. Olho para o mundo e percebo que apesar da aparente mesmice dos dias, da quase inalterabilidade do cotidiano a vida tem um movimento modificador. Este movimento é a metáfora das alternâncias entre e o caos e a dignidade. Mas a pressa do meu olhar não me deixa ver as transformações quase imperceptíveis que roçam levemente à minha vida. Estou necessitando da altura do voo, altura que está dentro de mim e eu não a encontro. Como existir algo dentro do vazio? O movimento da vida, que vem trazendo o novo, que me transforma em ávida criadora, que me faz compreender a realidade, me faz ficar estática esperando assustada o que virá, pois já perdi muito, não sei se dou conta de perder mais. Marco encontros com a vida, mas tenho receios de encontrar mortes pelo caminho. Então fico aqui. Quando perco o medo vou. Quando o medo persiste aprendo a ficar. Tento agarrar na esperança, mas ela me escapa. Escapou hoje, novamente em mim instalou a inquietude da não-paz. O tempo “fechou”, o céu não escureceu não, a noite é que se instalou em mim, fechei portas e janelas, não saio, não vejo o mundo, não existo no hoje, não existirei no amanhã, entrei na saudade, ou foi à saudade que entrou em mim. Sinceramente? Não sei. Li em algum lugar que o “fogão de lenha é o lugar da saudade”, e neste dia que minha alma está tão nublada, eu preciso do fogão de lenha para fixar meu olhar nas labaredas que refletem a luz do que se foi, do que não existe mais no crepitar da lenha que vai consumindo a realidade para entrar nas asas do sonho que me leva para o lugar da saudade… Saudades que não tem porquês, não têm razões, sinto saudades porque sinto saudades. Riobaldo, personagem do livro “Grande sertão veredas”, diz que toda “toda saudade é uma forma de velhice”, então eu já não ando, me arrasto, tanto são as vertentes saudosistas que fazem moradas em mim. Dentro de mim está o vazio, o rio da alegria não deságua em mim, minha alma está repleta do nada.  … Querendo modificar o mundo? Não, o mundo é que está em todos os lugares, exceto em mim. Eu só quero mudar o meu cenário interior, o nada pelo belo da vida. Não quero meu olhar ensombrecido, carícia triste da ausência de beleza, na minha concreta fragilidade humana que congrega a minha tristeza em volta das saudades das existências, hoje inexistentes, roubadas pelo tempo. Temporalidade, canteiro de minha impaciência, imagem provisória de minha existência. Meu jeito provisório de viver precisa de ponto final. Há vida lá fora e poetas conhecem o poder criativo da tristeza. Nela grandes  esperanças são gestadas . Preciso “ser” agora, não há repetições de momentos passados e para que “eu seja eu” e também “nós”, preciso do amor como garantia para que eu não me sinta um ser andante a esmo num mundo caótico. E, paradoxalmente, preciso da solidão e da tristeza. Estou me esvaziando, finjo não saber os porquês, a dor precisa de um corpo… Ó onipotente solidão!

14 pensamentos sobre “DESABAFO

  1. Chegando a época do natal me dá esse sentimento da não-paz, inquietude! Acho que é porque perdi entes queridos nessa época. Fogão de lenha realmente é o lugar da saudade. Morei vários anos na roça e o fogão de lenha era o point do encontro da meninada para aquecer nas noites e manhãs geladas! Saudades daquele tempo…

    • A chegada de dezembro desperta angústia, ansiedade, melancolia e sentimentos vazios de euforia- uma espécie de enlouquecimento efêmero, do qual poucos escapam. O Natal traz à luz as mais fortes experiências infantis. As lembranças de tantos desejos se apossam de nós combinando a saudade e a fantasmagoria do passado. O esforço para nos reunirmos e comemorar nos coloca sempre uma pergunta silenciosa, afinal por que nessa época não me sinto tão feliz como deveria? Recordar, repetir e elaborar – eis a difícil travessia que o final do ano propõe – temos de lidar com a difícil tarefa de reconstruir narrativamente vivências passadas. E o fogão de lenha representa muito bem esta passagem do que já não faz mais parte da nosso hoje, da nossa realidade. . Um grande abraço e leia “como as flores brancas”.

  2. Olá Alda, quero aqui deixar minhas referências elogiosas a sua pessoa pela forma linda e expontânea ao escrever essas maravilhosas palavras que retratam muito bem nosso cotidiano. Um abraço carinhoso.

    • Alcides, obrigado pelas suas carinhosas palavras, esse jeito de expressar o que escrevo só me estimula a escrever mais. Fiquei receiosa por abordar um tema como esse: solidão, pois tinha receios de que as pessoas não percebessem que é apenas uma abordagem de um tema e que ficcsionalmente entrei no contexto ´porque escrevo na primeira pessoa. Mas a verdade é que quando escrevemos, um pouco ou muito de nós está alí, e eu não sou a exceção. Vivemos em um mundo onde todos nós, mesmo acompanhados, sofremos da mesma “doença”, solidão. E como já disse em outros comentários a negação é a cegueira, fingimos não sentir, fingimos que somos infinitos, somos a própria negação daquilo que nos tira da existência terrena. Obrigado pelo seu comentário e ficarei muito feliz se você se fizer presente outra vez em meu site. Um grande abraço.

  3. Alda
    Está chovendo muito por aí?, seus textos me lembram os dias chovosos, como em 1973 choveu 90 dias quase que seguidos o rio transbordou, Unaí ficou praticamente ilhada as estradas viraram um atoleiro só, as pontes cairam. Desabafar é melhor que a solidão e a saudade é inevitável, só sentimos saudades do que é ou foi bom, ninguém sente saudades do ruim. As pessoas inteligentes sofrem mais que as outras, pois sempres querem fazer o melhor e nem sempre se consegue ou é possível. O natal me lembra as músicas da Casa Pimentel, dos enfeites e os brinquedos das lojas dos “Turcos”.

    • Orlando, contrariando um site que satiriza todas as cidades, Unaí está chovendo muito. Há tempos não vejo o nosso chão com chuvas sucessivas, chuvas boas para a gente dormir e sonhar. Destas enchentes, uma eu me lembro muito bem, morávamos perto do meu rio cor de noite e tivemos que mudar rapidamente. No meu livro de contos escrevi sobre um destes episódios, que aliás já está intimado para o lançamento, é também uma forma de conhecermos, de falar das saudades e estreitarmos os laços, já que os nossos laços com D. Celina e a família contínuam com nós atados. A solidão muitas vezes ela é necessária Orlando, muitas vezes precisamos ficar sozinhos para nos trazer de volta a nós mesmos, mas a solidão imposta pelas ausências, essa não, ela destrói.A tristeza que sentimos com a proximidade do natal, ela é natural, é época de confraternização, e acabamos nos angustiando pelas faltas e pela ausência de sentido que hoje comemoram o natal.Muitos não sabem quem é o aniversariante, imagine. Conheci primeiro a Casa Crioulo, depois mudaram o nome para Casa Pimentel, meu tio, irmão da minha mãe, Luiz Alves de Souza, é que falava no alto-falante e colocava aquelas músicas tristemente saudosistas. Já se foi também…Ah, as lojas dos turcos! Turcos que não eram turcos , ó meu Deus, como éramos limitados! Um grande abraço, estou aqui, quando quiser recordar, já sabe, “eu sou a saudade”. Matérias novas em meu site, conto com você. Um grande abraço.

  4. Olá querida Alda!
    Realmente precisamos um pouco da solidão e da tristeza para compreendermos mais os devaneios da vida… Mas só um pouco!
    Fico muito feliz ao ler textos que me permitem refletir sobre nossa breve existência; sobre a nossa imensa necessidade de abrandar o coração nas horas mais precárias de esperanças ou, ainda, simplesmente, permitir entregar-nos às essências de um simples dia de chuva…
    Muito obrigada pelas maravilhosas palavras, profundas reflexões de solene prazer.
    Continue povoando este cerrado por aí com suas inspirações e trazendo-nos a certeza de que, nas palavras, podemos depositar nossas mais insistentes convicções.
    Abraços carinhosos!
    Viviane de Oliviera

    • Olá, minha linda, sim precisamos um pouco da solidão, como eu disse ao Orlando, ela´precisa nos visitar de vez em quando para que nós possamos voltar a nós mesmos. E quando se trata de nos avaliar, de nos afastar apenas por um pequeno tempo para nos reorganizarmos e compreendermos melhor a nossa totalidade e a nossa singularidade, quando a solidão é uma opção temporal para melhorarmos o nosso ser e consequentemente a nossa estadia neste mundo, ela só trará benefícios. Penso que a chuva nos traz de volta ao seio da família, isto é, ela nos remete ao estado anterior ao presente, e isso pode ser bom, como pode ser ruim, depende ,se queremos passar de novo pelo passado… As chuvas costumam me propíciar estímulos para escrever, muitos poemas meus foram gestados com a chuva batendo no telhado, nas enxurradas levando barquinhos de papel e eu atrás do meu pequenino barco, cuidando dele para que ele não desmanchasse, afinal ele foi imaginado e criado para ficar comigo poucos momentos, logo ele seguiria seu rumo em direção à sua finitude, pois sua fragilidade estava justamente na sua construção… Era de papel! Esta foi uma lembrança muito forte de dias chuvosos que também gestei um poema. Mas a chuva também tem rosto de Deus, pela janela do meu quarto eu fico apreciando ela cair, parece que Deus sabe e entende nossas necessidades. Parece? O cheiro da terra molhada é o cheiro de Deus no plantio das lavouras! Quando a chuva termina, acabam-se os devaneios e encaramos a vida no presente, do jeito que ela está, do jeito que ela é.Viviane, um grande abraço, você significa a beleza em todos os segmentos do belo. Obrigado, beijos em seu coração. Alda

  5. Alda,
    Assim não vale, você coloca estilo e poesia até nas respostas. Claro que estarei no lançamento de seu próximo livro. Como é bom saber que aí está chevendo e chuva boa, eu adorava brincar na enchorrada, e jogar futebol na lama no campinho beira do Santa Rita, chegava em casa parecendo um porco. Acho que o nosso rio cor da noite depois da barragem não transborda mais. Nosso chão é muito carente de chuvas. Dormir e sonhar ouvinda uma chuva fininha é tudo de bom.
    Obrigado por tudo e continue escrevendo cada vez mais lindo e sacudindo essa moçada. Sujestão: Lançe um movimento literário ACORDA UNAÍ.
    oRLANDO.

    • Orlando, vou acabar acreditando em tudo que vc fala … Ontem parou de chover em Unaí, mas o cerrado está bonito, meu chão está florescendo e a serra que vejo daqui da minha casa está verdinha! Muitas vezes vou la fora só para vê-la e ficar imaginando como está o cerrado ao fazer a transposição da serra. Imagino sim, deve estar lindo, com poucas flores, com suas belas árvores tortas, com as inúmeras fazendas permeando o cerrado e o Rio Preto cantante chamando Alda Barbosa para ouvir o seu canto. Ó belo rio, rio de minha infância… Mas espetáculo mesmo são as andorinhas divididas em grupos enfeitando os céus em forma da letra V e se dirigindo barulhentamente para a lagoa que fica atrás da serra. O entardecer Orlando, existe crepúsculo mais bonito que o nosso? Não, não existe. Crepúsculos bonitos só em nosso cerrado e na terra que lhe adotou como filho também. Obrigado por tudo e pelo bem que me faz. E também já agradeço pela sua vinda ao lançamento do meu livro de contos, este sim Orlando, vou vê-lo chorar, tantas são as situações que vc se enquadrará nelas. Um grande abraço, beijos em sua alma linda. Alda

  6. Olá minha querida Poetisa Alda!

    Parabéns! Hoje finalmente arrumei um tempinho para ler estes contos maravilhosos. Que voce continue perseverando e nos presentendo com este dom que “Deus” lhe deu, isto são para poucos e você foi uma escolhida por “Ele”. Esta saudade, eu considero como um registro fiel do passado é a prova incontestável de tudo o que vivemos e ficou impresso na alma. Ah! me deu uma saudade daì, quando acabei de ler tudo, me reportei à minha infância, juventude, de tudo vivido ali no Capim Branco e somente você para nos dá esta alegria.

    Para Joacélia e Iris, deixo os meus parabéns pela obra de arte, tudo é muito lindo, adorei.

    Para minhas filhas , amigos e parentes daqui, pedirei que entre neste site para ver a tua obra.
    Bjus de quem muito lhe admira, Edmea alves.

    • Edmea, lhe agradeço muito pelas suas palavras de incentivo. Estou batalhando para conseguiir manter este site no ar. Mas o trabalho é intensi, pois quando postamos as matérias da semana, já tenho que escrever para a outra, e tudo tem que ser pensado, pois tem que ser de acordo com o interesse da população, e cultura requer pesquisas e necessita de pessoas interessadas no assunto para acessar. Agradeço muito as suas palavras e gostaria mesmo que vc me ajudasse a divulgar este site, principalmente entre os nossos de Unaí que vivem fora e se interessam pelos acontecimentos da terra natal. Entrei em contato com Antonio, ele me disse que trará os filhos dele para eu conhecer, assim como quero conhecer suas filhas. Um grande abraço e obrigado por tudo. Joacélia e Iris agradecem os elogios. Veja as matérias postadas no site ontem. Fique com Deus. Alda

  7. Suas palavras brotadas do coração encantam a todos. Sua sinceridade, amizade e sabedoria com que se dirige às pessoas de forma virtual ou pessoalmente é que te faz um ser humano tão, mas tão encantador.
    Não conseguiria, se precisasse, expressar todos os sentimentos que tenho por você.

    • Olha Sônia, gostaria realmente que o que escrevo encantasse as pessoas, pois precisamos de beleza e encantamento para vivermos com felicidade. Mas o que eu gostaria mesmo é que vivêssemos encantados pela beleza do nosso chão, Imagine Sônia, Unaí limpa, sem lixo nas ruas, com parques bem cuidados, floridos, ruas arborizadas minimizando o calor tão intenso. Imagine Sônia, nós vivendo em uma cidade onde lixo é lixo e gente é gente… Imagine vivendo no bairro das Mansões, onde paradoxalmente as mansões são casas humildes, sem água, sem infra- estrutura nenhuma e quem vendeu não faz o que a lei manda fazer, aliás pelo que eu conheço de leis, o pouco, não se pode fazer loteamento sem que toda a infra-estrutura esteja “estruturada”. Imagine se as leis fossem realmente cumpridas? As palavras que escrevo seriam apenas para expressar a beleza do nosso cerrado, a felicidade de morar neste chão, enfim, o encantamento pela vida. Um grande abraço, não deixe de imaginar, utopia faz bem, ajuda a viver…

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