FIM DE ANO, TEMPO DE SOLIDÃO

Fim de ano, que fazer no próximo? Que fazer com o futuro? Estas são uma das inúmeras perguntas que nós fazemos a nós mesmos a cada final de trezentos e sessenta e cinco dias. É a portabilidade da “loucura” que nos faz tornar humanos ao propor o limite de nossa liberdade. Quem começou, confiando nos números financeiros fatalmente será presa fácil das cadeias das promessas de ano-novo, feitas baseadas em metas e objetivos, são facilmente derrubadas pelo primeiro contato com o cotidiano. Elas transbordam na decepção com a nossa ilusão da prática da liberdade. Isto aparece na forma como colocamos nesse período as expectativas de “consertar a vida”. As questões em atraso são colocadas como primordial para resolver o passado, criar um novo futuro, sem pendências emocionais e financeiras. Esta ilusão de renascimento da ancestral prática cultural corresponde a momentos de passagem, entre o modo de vida e outro, entre o dia e a noite, entre a colheita e o plantio, entre a juventude e a velhice.  Aprendemos a simbolizar as mudanças da partilha rememorando e reescrevendo a nossa história conforme estes dualismos e outros não exemplificados. A festa, o fim de ano são exemplos mais ou menos coletivos destes encontros temporários. Nossa época tem um olhar desconfiado sobre estes encontros onde anuncia que somos libertos, e, estejamos justamente, apesar da liberdade, sujeito a esta associação íntima, esta “harmonia”. Isto nos ajuda entender, que apesar do espírito de confraternização, o “enlouquecimento” do final de ano é um convite para e experiência da solidão. Bem no fundo de nós mesmos, sabemos que esses “encontros temporários” é mais uma tentativa para o entendimento, o destino é uma tarefa profundamente solitária. Para a maioria o “enlouquecimento” do final de ano assume um rito sagrado, mística ou religiosa, mas sabemos que estas manifestações, no fundo, é uma forma se saudosismo, de valorização do passado, e um escapismo das atribulações do presente. Melhor seria olhar para essa força simbólica sem tentar resgatar a essência de passado, isto é, em vez de mimetizar o passado, como se sua repetição fosse garantia de felicidade e segurança, arriscar-se a viver o novo pode produzir efeitos reais. Boa parte do “enlouquecimento” do final de ano reaviva com a promessa de um passado que nos colocaria em contato com um futuro previsível anunciado nos pedidos e promessas de ano novo. Na realidade este “enlouquecer” de final de ano potencializa o “enlouquecimento” que já havia criado raízes, encoberto pelo esquecimento e a ocupação. O chamado “balanço” de fim de ano infelizmente pode ser piorado por diversas circunstâncias: o encontro com parentes e amigos, tanto faz. Tido como momento de reencontro fraterno, o período tem um potencial explosivo, principalmente se a contabilidade tiver um conteúdo negativo. Neste caso ao retornar a memória e a história coletiva em vez da reafirmação a tendência é intimidar o outro diante das grandes realizações de alguns, ou a intimidação através das vicissitudes dos nossos próprios laços familiares, encontrando nesse comportamento o terreno fértil para transformar a nossa insatisfação em culpa. A culpa é decorrente de não estarmos à altura de nossos desejos, mas na verdade é um subterfúgio preferível a angustia. O final do ano convoca a experiência do tempo. O tempo não percebido da ocupação cotidiana é suspenso sentimo-nos improdutivos .  De “repente nos damos conta de que o tempo passou, sem que nos déssemos conta e então criamos as circularidades:” a vida ficou me devendo uma este ano? Vou comer aquela porção extra de rabanada… afinal eu mereço “.

Tememos este período e também o esperamos ardentemente; Seu retorno insidioso, ano após ano, traz à luz as mais fortes experiências infantis.

ALDA ALVES BARBOSA

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