PENSANDO O NATAL, REPENSANDO UNAÍ

Meia noite do primeiro minuto do dia 25 de dezembro, os dois sinos da igreja branca, bonita, matriz nossa senhora da conceição da ainda pequena Unaí, badalavam num ritmo lento, pausado, chamando os retardatários para a Missa do Galo. A cidade que habitualmente já dormitava naquele horário, nesse dia tão especial as ruas ainda continuavam cheias de gente, as lâmpadas acesas e o ânimo do povo continuado. As músicas natalinas da Casa Pimentel haviam cessado, o locutor com sua voz bem articulada encerrou a programação para que todos atendessem o chamado dos sinos… Ia começar a missa comemorativa do nascimento do filho de Deus. Missa demorada, celebrada devagar para que todos pudessem derramar em seus corações as lágrimas de alívio pela sua garantida salvação por Aquele que nasceu para que todos nós tivéssemos vida. No ar o perfume das folhas do cerrado que enfeitavam o enorme presépio e impregnava a igreja com o cheiro do sertão. Nas residências, os símbolos do Natal enfeitavam com modéstia, característica da nossa cidade ,em tempos tão distantes! As mesas arrumadas com o arroz de forno, peru assado, um enorme porco assado com uma laranja na boca – Laranja porque não havia maçãs neste chão – aguardavam os moradores para comemorar dignamente o nascimento de Jesus. Hoje, 2010, os tempos são outros e Unaí também é outra cidade. Tão jovem tão amável e cheia de problemas!  Problemas que poderiam ser resolvidos com consenso, boa vontade. Posso lhe fazer umas perguntas Ó minha Unaí?
– Você se sente amada por seus habitantes?
– Quando jogam lixo em seu chão como você se sente?
– Quando as flores dos jardins maltrados pela ausência de cuidados dão lugar ao mato, ao capim, aos ratos, aos escorpiões, ao mosquito transmissor da dengue, você fica indignada?
– Quando os lotes antes vagos, agora habitados pela sujeira, pelo lixo, qual o seu sentimento diante da visão de cidade abandonada?
– Meu cerrado, creio que ainda posso chamá-lo assim. Qual a sua reação diante do sol encostando no seu povo e as árvores que amenizam o calor sendo derrubadas e não sendo providenciado um novo plantio?
– Minha querida Unaí, sonhe comigo, vamos, imagine a Unimontes com mais cursos dando oportunidades a todos de realizarem seus sonhos?
– Você já se perguntou Ó Unaí, que serventia tem o seu parque industrial?
– Você fica envergonhada de ver suas ruas sujas contrastando com as lojas sofisticadas e o seu povo bem arrumado. Faz sentido isso Unaí?
– Faz sentido Ó meu torrão, as buzinas na madrugada, o som dos carros num volume  ensurdecedor , acordando aqueles que dormem para recomeçar suas vidas no amanhã ?
– Faz sentido os cavalos-de-pau ameaçando a integridade física das pessoas que andam pelas  ruas ou estão trabalhando em suas casas?
– Faz sentido você existir sem uma reserva ambiental?
– Faz sentido o rio sem o deslizar dos peixes?
– Ó Unaí, você se sente bem administrada?
– Será Unaí, que seus líderes são dignos de você?
– Sabe Unaí, neste Natal vamos pensar no sentido do natal, mas vamos repensar você. Você  que poderia ter sido e não foi; Você que poderia ser e não é, você… Neste final de ano vamos olhá-la mais demoradamente e reivindicar tudo que lhe falta… Sei, falta quase tudo. Mas o que poderemos efetivamente fazer por você ,Ó meu chão? O quê, fala, estamos ouvindo… É isto mesmo que você quer que façamos?
– Onde estão vocês?
-Venham cuidar da nossa Unaí!!!
– Toc… Toc… Toc… Tem alguém aí???

16 pensamentos sobre “PENSANDO O NATAL, REPENSANDO UNAÍ

  1. Alda,

    Estou com sentimento ambíguo, adorei ver a foto a cidadade verdinha e o rio parece estar cheio. Ah! as músicas de natal da Casa Pimentel, o sino chamando para a missa do galo, o Frei Anselmo com sua paciência de Jó rezando a missa que parecia não ter fim. Essas lembranças me fazem sentir privilegiado de ter vivido e ajudado a escrever parte dessa história.
    Por outro lado fico muito triste em saber que nossa cidade não está recebendo o tratamento merecido, por parte das autoridades e de seus moradores.
    E volto a ficar feliz novamente ao saber que você está aí firme usando uma arma poderosíssima, que é a inteligência para alertar o povo, que não é bobo. O troco virá. Não é rápido. Alda, tudo dá muito trabalho, essa questão ambiental leva anos e a questão cultural leva séculos. Aguente firme. O bem vencerá.
    Obrigado.
    Orlando.

    • Oi meu amigo,eu sabia que meu parceiro saudosista iria balançar! Eu de cá, no meu cerrado, escrevia e via nitidamente tudo acontecendo. Lembra daquela música de Chico Buarque, “{…} a coisa aqui tá preta, lembra? É isso aí? Está uma vergonha, mas eu não estou só, tem muita gente na luta, inclusive com blogs, vou pegar os endereços e vc verá como tudo está. Eu ainda poetizo, eles vão e falam mesmo, fiquei muito feliz quando descobri estes blogs, inclusive um é do meu primo Paulo, filho de tio Domingos, vou passar para vc, mas não me abandone rsrsrsr ok? Este sentimento dúbio existe em todos nós que vivenciamos aquela época, mas não se esqueça que naquela época o coronelismo já existia e hoje ele está retornando com passos largos. Um grande abraço. Amanhã enviarei cartões de natal feitos por mim e minha sobrinha, com material do nosso sertão. Feliz Natal e um ano novo que na verdade é apenas o outro dia com número diferente, mas que você viva com saúde e alegria e com sua amiga aqui. Beijos em sua família e obrigado por estar comigo em meu site com a promessa de nos conhecermos em breve, não é mesmo?Alda

  2. Com o devido respeito, creio ter faltado algumas perguntas cruciais, que tomo a liberdade de fazer neste comentário:

    _ Ó, Unaí, você se sente bem administrada?

    _ Será, Unaí, que seus líderes são dignos de você?

    Obrigado, Alda, por mais um belo texto, sempre nos chamando para a realidade e para a reflexão crítica.

    • Oi primo, obrigado por me alertar, em dois dias escrevi quatro textos e um conto para o próximo livro, e na madrugada de ontem eu e minha sobrinha Maria Eduarda fomos postar, daí algumas falhas que já foram sanadas. As perguntas cruciais já foram colocadas, obrigada por alertar-me. Gostaria muito que você me desse algumas sugestões de matérias, fica registrada a minha sugestão. Um grande abraço.

  3. Olá Alda, eu não vivi este tempo que vc conta, mas só de imaginar dá saudades. Mas vc lembrou bem, nossa Unaí está cada vez mais mal cuidada, tanto pelos seus governantes, quanto pela sua população. Não podemos voltar ao passado, mas podemos construir um novo futuro, mas para isso temos que começar agora a fazer alguma coisa, e vc já esta fazendo, nos brindando a cada diz com textos maravilhosos, poemas que nos fazem pensar, reagir e tentar mudar o atual quadro que está instalado em nossa querida Unaí.
    Parabéns, Feliz Natal e um Ano Novo repleto de realizações.

    • Obrigado Iuster, cada novo comentário vem de encontro ao que eu penso, vejo e luto, e percebo a cada dia que passa que não estou só, que há muita gente denunciando, questionando e tentando de várias formas mudar o comportamento do nosso povo com relação o chão que ele mora e alertar os governantes que eles estão ali porque o povo os elegeram, não são os donos, e sim empregados da população que infelizmente não souberam ou não tinham a quem escolher pela incapacidade dos candidatos de legislar com respeito a terra que os tornaram pessoas prósperas. Este quadro tem que mudar, depende de nós, não deles, nenhum governante neste mundo está,como dizia minha mãe”batido a prego”, o povo põe, o povo tira, mas de nós também vem a falta de cuidado com o que é nosso, lutei muito pelo corguinho limpo, vou todos os dias ver se continua limpo, se a população está fazendo o seu papel, mas as ruas de Unaí, o mato, o descaso me assustou quando resolvi olhar mais demoradamente para o caos que está se instalando em Unaí. A minha luta não é isolada e agradeço a você pela sua preocupação com a nossa cidade, mas vc pode ajudar: quando ver alguém jogando um papel na rua, ou qualquer objeto chame a atenção, fale, eu faço isso, não me importo com os olhares raivosos que me lançam. Bicicleta nas passarelas do corguinho? Só se eu não estiver, tiro fotos e qualquer dia ponho em meu site. Sabe Iuster, eu escrevo para dois jornais em Unaí, as minhas matérias do meu site vão para os jornais porque nem todos tem um computador para acessar, então eu vou para o corguinho e para outros bairros depois do corguinho e entrego jornais. Faço isso para que o povo saiba o que está acontecendo em nosso município. No bairro Cachoeira tenho uma amiga que distribui para mim, só assim podemos esclarecer a população, já que educação e cultura que nos fazem ter uma visão crítica, não está ao alcance de todos. Um grande abraço, obrigado pelos elogios, um Feliz Natal para você também e um que nós possamos viver o próximo ano em uma cidade limpa, não em lugares onde habitam os… Censurei..

    • Oi Senhor Romeu, estarei lhe esperando. Lembrou do passado? Mas lembre-se também do presente e do nosso futuro. Venha ver as nossas ruas, as ausências de árvores e as presenças… Lembre-se ,a sua velhice será aqui, comece arregaçando as mangas das camisas, camisas porque daqui uns anos nem mangueiras nesta nossa terra teremos, portanto, é mais uma fruta do cerrado que se extingue em nosso sertão Unaiense. Bom mesmo era aquele tempo… Mas os coronéis também existiam… Unaí está se coronelizando de novo. Duvida? Venha ver de perto. Um grande abraço. Notícia triste a de ontem!!! Estou meio sem rumo.

  4. Prima, não tinha a pretensão de alterar o seu texto. Era apenas um comentário que considerei pertinente diante das indagações que o artigo sugeria. Mas fiquei lisonjeado por ter incorporado as perguntas ao que havia escrito. Se puder sugerir um tema, acho que poderia escrever sobre o que nós, cidadãos, podemos dar de presente para nossa querida Unaí, já que se aproxima o seu aniversário de emancipação política. Nos brinde, Alda, com um texto que chame a nossa responsabilidade para com essa cidade e sobre tudo o que ainda estamos devendo a ela.

    • A sua pertinência estava certa, por isso incorporei as perguntas ao texto. Não precisa se desculpar por isto, estou aqui para ser orientada também, e ninguém melhor que você tem capacidade para isso. Achei excelente a sua sugestão, vou escrever um texto abrangendo todo o contexto sugerido por você. Que tal eu colocar um link do seu blog no meu? e vice-versa. Pense nos prós e contras, eu sinceramente não acho que tenha contras, outro tipo de leitor terá acesso ao seu blog e ao meu, uma parceria edificada no mesmo propósito, mas diferente na forma. Pense. Um grande abraço e um Feliz Natal a você e sua família.

  5. Prima, no meu blog já tem, em posição de destaque, um link para o seu site. Tá lá, no lado direito da página, na MINHA LISTA DE BLOGS, o link para Raízes, sempre registrando o tema da última postagem. Como leitor assíduo, não podia deixar de divulgar. Desejo também a você um feliz natal e um grande 2011, cheio de muita saúde, paz e bastante inspiração.

  6. Obrigada Paulo, sou um pouco rápida demais, às vezes não olho as coisas demoradamente, por isto não percebi que já havia um link do meu site no seu blog Agradeço-o muito. Tenho permissão para colocar um link do seu blog no meu? Gostou do novo visual do site? Beijos, Alda

  7. Minha linda, Unaí pode ter tudo ou não ter nada, mas enquanto tiver vc tenha certeza que ela terá mais do que merece. Pelo menos terá o amor de uma Unaiense apaixanada pelo seu cerrado….Beijos pra você….

    • Meu lindo, que bela surpresa! Nunca imaginei você participando do meu trabalho e com palavras tão bonitas que me tocaram verdadeiramente o coração. Quem tem você não precisa de anjos, você já é o anjo que protege, que cuida…
      Nunca alguém me disse palavras tão verdadeiras sobre o meu incomensurável amor por este meu cerrado, por este meu chão… e você apesar do pouco tempo teve esta sensibilidade. Sim Gilson, o meu amor por este pedaço do sertão não tem limites e me faltam palavras para expressar este querer bem. O indizível não se diz, é sentimento. Obrigada meu lindo, beijos pra você…

  8. Querida prima, fiquei profundamente emocionado com o texto, principalmente porque vivenciei cada momento. Uma das personagens da época que sempre marcou a Missa do Galo foi “Toinha”, da Rua do Coqueiro, sobrinha de Antonia Paca, lembra-se??? bons tempos. Ela fazia o momento que o rosto de Jesus era descoberto com uma música ao fundo. É a primeira vez que acesso o blog e estou encantado. Estarei sempre de agora em diante passando por aqui.
    Um grande abraço!

  9. Geraldo, quem está emocionada sou eu, rever você, ou ter notícia sua e de sua família foi um presente de que gostei muito. Obrigada por entrar em contato, nossa família, antes tão unida, hoje dissipada pelas necessidades da vida de cada um. Mas é assim mesmo, enquanto houver vida dentro de nós estaremos sempre nas estradas à procura de quê mesmo? Não sei, você tem resposta para isso? Quero desculpar-me por não ter-lhe enviado o endereço do meu site, mas Edmeia me deu o endereço de Antonio, entrei em contato com ele e pensei que ela passaria para você, mas isto não aconteceu por um motivo qualquer, o importante é que hoje vc está aqui. Você como tia Preta se emocionou muito ao ler sobre os nossos Natais… Chorei eu ao escrever, senti todo o passado no presente… ouvi a voz de tio Luiz na Casa Pimentel, o vaivém na rua grande, o sino tocando, as pessoas se abraçando, minha mãe, meu pai, meus tios, primos, avós, bisavós… Tia Maroca com sua linda ceia de Natal!!!É Geraldo a vida continua sem eles, portanto urge que olhemos para a frente e que a saudade fique escondida no coração. Lembro-me nítidamente de”Toinha” e Antonia Paca, da leveza do véu sendo retirado do rosto de Jesus, da música sacra como fundo musical! Bela recordação… Olha, espero sinceramente que você e sua família me visite sempre, toda segunda feira matérias novas. Envio e-mails avisando. Obrigado por tudo, Abraços a toda família e mais uma vez estou muito feliz em poder entrar em contato com vocês. Beijos

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