Vida Nua

A chuva não dava tréguas. Há muitos dias a cidade recebia o abraço do céu e o beijo de Deus. Ninguém nas ruas, a vida estava só. Nas sombras de um pequeno quarto estava Laura, habitando as tristezas das saudades de um fim imaginado. A vida lhe escapara, o mundo ela não o conhecia, esquecera de olhá-lo e se interagir com ele. As pessoas sempre caminharam em sua direção, ela não as reteve em seu mundo, deixou-as ir sem sequer um gesto para que elas permanecessem. Não tinha vocação para a convivência. A solidão enriquecia o seu intelecto. Ela sentia a beleza da não interferência, da liberdade do só. Com as mãos em concha solvia em gotas o gosto de apenas ser: ser a solidão, ser o só, ser a liberdade de estar em si mesma, sem divisões. Mas neste dia em que a chuva insistia em cair e apenas os relâmpagos jogavam em seu quarto fios de claridade, começou a sonhar com as palavras, a sentir o pensamento, a querer ser, a querer um contato com ela. “Cadê eu? Onde estão os outros?” E uma resposta breve emergia do seu pensamento: “você é você mesma… Os outros você os deixou ir.  Você permanece em si mesma, tem o nada, o inexprimível, você, a desconhecida do seu próprio mundo.” Sou desconhecida de mim mesma – Laura pensou – e, com dificuldade, levantou-se da cama  – agora também uma desconhecida – abriu a porta e saiu. A chuva colava suas vestes em seu corpo e ela se mostrava ao mundo ainda sem vida, o corpo esquálido no andar arrastado, vacilante… Ia à procura dela mesma, do seu esboço. Ia à procura do mundo, dos que se foram. Queria  ainda viver do por enquanto, pois sempre soube que nada é definitivo, nada é para sempre. Um dia “iria conhecer a face sem rugas da eternidade”, mas antes  da ausência definitiva no mundo, queria a vida, seus percalços… Se houver tempo, ainda.

Alda Alves Barbosa

3 pensamentos sobre “Vida Nua

    • oi Carlos
      A Laura está sendo feliz. Tive notícias dela, ela está vivendo só o dia, sem antecipação de amanhãs e sem o pensamento nos ontens. Os ontens estão servindo apenas como referência para os amanhãs. Como você desejo que ela continue sendo feliz, só ou acompanhada. Um grande abraço.

    • oi Carlos
      A Laura está sendo feliz. Tive notícias dela, ela está vivendo só o dia, sem antecipação de amanhãs e sem o pensamento nos ontens. Os ontens estão servindo apenas como referência para os amanhãs. Como você desejo que ela continue sendo feliz, só ou acompanhada. Um grande abraço.

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