ODE AO MEU CHÃO

Não quero inventar-te, quero que sejas. Inventar significa sonhar o sonho do desejo. Quero-te realizada, não imaginada. É certo que tu existes e assiste a incomunicabilidade de diálogos entre surdos, porque ninguém quer ouvir senão os ecos de teus próprios solos. Tudo está fazendo menos sentido, teu nome agora é projeto, nenhum nome aquece “o fazer”; projeto, promessas, são palavras tão conhecidas! Estás Ó Meu Chão, com saudades dos teus significados tão perdidos no hoje? Estás sentindo a insuportável dispersão da responsabilidade sobre ti? Sente-te humilhada com a condição de anjo caído por engano numa imagem de cidade em pleno desenvolvimento? Não fiques triste. Esqueça cada fragmento do teu passado recente, do teu agora, vamos pensar em teus amanhãs. Hoje, não te sintas como o nada, o nada é aquilo que nos lembra aos outros quando morremos das inúmeras mortes que os outros nos infligiram. Por quê tanto silêncio? Estes teus silêncios escondem as perguntas que te angustiam? Não tem a quem perguntar?O que se pergunta à ausência? Os espaços tão vazios estão  enchendo de lodo pesado. A dor precisa de um corpo. Meu corpo dói por ti. Ninguém se lembra de ti como eu! Como tu, quero apenas esta alegria rara de te ver inteira, sem a desfiguração dos excessos e das faltas. Tu és jovem e a juventude tem a capacidade de acreditar em tudo de novo a partir das cinzas. Conheço tuas escolhas, entre a memória e o afeto, queres o afeto. Por Isto eu te chamo de amor. Mas sei que posso fazer pouco para alterar o espetáculo do seu sofrimento, os buracos que ficaram no lugar dos teus risos. Após tantos anos, sabe que começo a esquecer como eram tuas ruas, tuas praças, o brilho do teu sol, da tua lua, das tuas estrelas? Não me recordo mais do teu chão limpo, o mato e os detritos jogados em tua existência  tiraram-te a amplidão da beleza . És o meu chão, mas não enxergo mais a terra que te cobre. Venha, eu te acolho, em meu corpo está a tua morada! Meu coração não te quer ver arrastando.

Alda Alves Barbosa

4 pensamentos sobre “ODE AO MEU CHÃO

  1. Em Off,
    Querida Alda, na sua opinião qual é a Identidade Cultural de Unaí? Unaí tem tradição em algo relevante que poderia ser trabalhado? Escreva sobre, postagem, para nós leitores de seu Blog a respeito.

    Um grande abraço

  2. Geni, a identidade de nossa terra é a aculturação. As pessoas que aqui vivem ,a minoria, os bisavós, os avós ou mesmos os pais, nasceram aqui, conseguentemente temos várias formas de cultura e vamos nos agregando a elas, sem abrir mão da nossa. O que quero dizer é que apesar da aculturação somos um povo que tem facilidade de adaptar a outras culturas sem abrir mão da cultura mãe. Dá um colorido bonito, a mistura de “jeito de ser”.Todos tão diferentes e tão iguais no convívio! Certamente a cidade paga um preço, pois pode acontecer em pouco tempo o desaparecimento da cultura deixada pelos seus fundadores. Mas temos que pensar que se os Unaienses sairam daqui procurando uma vida melhor, ai de Unaí se não fosse esta aculturação. Estaríamos vivendo os mesmos tempos da alforria, pouca gente, poucas casas, pouco tudo… na verdade uma
    cidade como antigamente, da matriz até o Capim Branco. Ainda podemos segurar e melhorar algumas tradições como, a festa do Bouqueirão onde tudo começou, poderíamos abrir mais as portas e alegrarmos com a folia de Santos Reis, e outra que está quase pondo um ponto final: a belíssima festa da exposição, quer dizer, belíssima há décadas atrás, hoje ela se arrasta tentando sobreviver ao improviso. Farei sim, e agradeço muito o seu pedido, uma matéria sobre “quem somos nós”. Esta matéria eu farei na próxima semana porque os assuntos desta , já foram desenvolvidos e são bastante interessantes também. Acredito que será um artigo muito esclarecedor e o agradeço por isso. Aceito mais sugestões…
    Obrigado pelo carinho e pelas suas palavras que ajudam a gente a querer fazer sempre melhor. Um grande abraço

  3. Geni, gostaria de acrescentar a festa da Moagem, que apesar de estar ainda tão jovem, ela está vinculada a nossa cultura de “raiz”. Bastaria mais um pouco de “tempero” e nós teríamos uma das belezas e das nossas riquezas sendo homenageada, festejada… Carros de bois, cavalgada, comida típica do nosso chão, do nosso cerrado, é muito bonito, bastaria mais investimentos para termos mais orgulho desta festa tão nossa! Abraços

  4. E de fato o nosso chão está irreconhecível. Não que o quisesse suspenso no tempo. Mas bem que gostaria que seus valores fossem perpetuados para as novas gerações e que elas pudessem verdadeiramente amar esse cantinho de mundo. Mais uma vez, Alda, meus parabéns por dizer tanto de forma tão leve e tocante.

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