DESPERTA, Ó TERRA

Unaí, cerrado molhado
Com suas árvores tortas,
Corre dentro de mim as
Divisões das águas
Do Rio Preto
Em vertentes de nascentes
Mortuárias, com Pitombeiras  raras
E jabuticabeiras secas.
Teu nome brilha em
Meu poema como
O peixe Dourado brilhou
Um dia em meu cesto
De pescadora.
És o meu chão
Mas não tens o perfume
Da mangabeira em flor,
Não tens o aroma da paz
Dos pastos, nem o cheiro da
Umidade das margens
Do Rio Cor de Noite.
Não, minha terra
Cheiras mal,
Cheiras a fúria,
A desrespeito,
A rancor.
Cresceste para a amplitude
Como a terra ou maior ainda
Na luz do sol que abriu
Mostrando o tamanho do
Espaço que ocupas.
Chegou a chuva,
Da terra colheitas mais
Douradas do mundo
Fazem brilhar teus celeiros
Como o fulgor das estrelas.
Perdeste a quietude dos
Retratos dos ontens,
Saudades insuportáveis
Desse amor pela minha
Terra, pelo meu chão,
Caminhos que me levam
A solidão bonita do cerrado,
Do rio cantante,
Do trovão ecoando ao longe,
Das serranias que
Circundam teu chão.
Eu sozinha buscando a razão
Da terra sem asas
Só em tua magnitude,
Como se houvesse soterrado
Vida por vida
Para reinar o silêncio.

Alda Alves Barbosa

10 pensamentos sobre “DESPERTA, Ó TERRA

  1. Alda. Chão barrento, crú, pisado no decorrer dos anos. Vimos os dourados, os surubins, os piaus, as matrinchans pularem fisgadas no anzol dos antigos. Mas, infelizmente a natureza foi embora no ronco dos motoserras.
    Árvores centenárias cairam em poucos minutos.
    A crueza vem a tona.É como diz Raimundo Fagner,como intérprete naquela canção: ‘Hoje só acredito no pulsar das minhas veias, e aquela luz q. havia em cada ponto de partida há muito me deixou, há muito me deixou o o o…’ por aí vai, vai as águas que acabam, o solo que secou, as árvores, as pessoas,… isso aí. abraços e parabéns pela poesia. Nua e crua, desnuda como a própria natureza.

    • Alberto, distante do chão barrento, cru, pisado, repisado, em meio às árvores centenárias torcidas e retorcidas pelo homem que indignamente derrubava nosso cerrado nas madrugadas calorentas deste pedaço de sertão, o Rio Preto continuava seu caminhar em direção as outras águas. Ali na pedra do Urubu, liberta do mundo, ausente de tudo ao seu redor, estava dona Salvina com sua vara de pescar e sem maltratar a natureza, retirava dela o delicioso Dourado, Surubim, matrichans. Retornava já no escurecer do cerrado, o cansaço ficara para trás. Seu Zé, e a paixão pelo Rio Preto, pela pescaria, a tranquilidade estampada no rosto. O Rio cor de noite tem segredos segredados somente às suas águas, mas posso lhe afirmar que se não queres voltar à Unaí, não beba das águas do Rio Preto…Sim o tempo e o homem transformaram não só o nosso chão, transformaram outros chãos, estão desnudando o planeta, estão desnudando o homem dos seus sentimentos bons e conseguentemente seus valores éticos. Falta ética na família, falta ética no trabalho, falta ética nos políticos, falta respeito pelo outro, como o chão cru, seco, os sentimentos do homem estão secando!
      Seremos quem? Ou seremos o quê? Vai se saber…

  2. Quando vejo seus poemas sobre Unaí, volto ao tempo especialmente quando fala do Rio Preto, recordo-me dos relatos sobre a ponte velha…(que os mais antigos conheceram), Benedito “matrincham”, Tio Sandó, Mário prancha… que saudades. Belíssimo poema. parabéns!

    • … E eu faço os poemas porque volto amorosamente no tempo. Rio Preto, meu rio cor de noite, rio das lavadeiras, das crianças que ali nadavam, rio de dona Salvina que descia a rua grande todos os dias impreterivelmente com sua vara de pescar, rio de Seu José de tia Joviana… Quando criança eu o via passar e pensava comigo:” O Rio Preto é meu e de Seu Zé”Rio dos Dourados, dos Surubins… Ponte Velhas, ponte de cabo de aço de Mário Prancha e seu cavalo, de tio Sandó e Joaquim do Barco! Rio Preto, Rio de todas as cores do arco-irís, plagiando Guimarães Rosa ” Rio meu de amor, é o Rio Preto! Um grande abraço Geraldo, matará suas saudades no meu livro de contos. Bjus, Alda

  3. Alda, Lindo poema, troxe-me ótimas recordações, e a vontade de rever nossa terra tão linda e tão judiada, nosso povo tão alegre e amigo. Gostei também dos comentários do Alberto e do Geraldo em lembrar de coisas e pessoas tão importantes para nós ao logo desses anos. (depois eu conto um acontecimento com meu primo Mário Prancha).Alda,
    Neste fim de semana aconteceu aqui em Brasília o X (décimo) encontro de folia de reis do DF, evento que reune praticantes do DF e entorno e também foliões de outros estados. Todo ano os conterrâneos de Unaí abriam o festival, esse ano tivemos a honra de encerrar. Foi lindo, cantando com a alma, afinadíssimos, capitaneados pelo guia Domingos David os foliões de Unai arrancaram aplausos calorosos do público sertanejo e caipira, que todos os anos cantam a saga do nascimento de Jesus. Você já está convidada para o ano que vem tá?
    Obrigado, abraço.
    Orlando 22.02. 2011

    • Orlando, olha até eu achei meu poema bonito! Acho que ficou foi lindo rsrsr mesmo. Gosto deste chão e por isto fica fácil falar sobre ele. Está judiada sim, e como está, mas logo, se Deus assim permitir e nós lutarmos, ela estará em mãos amorosas que cuidará bem dela. Não haverá subtrações , haverá sim acréscimos que suprirão as diversas necessidades da população unaiense. Abri uma pasta para colocar seus e-mails sobre esta festa linda, estou aguardando as fotos para uma grande e necessária reportagem sobre uma tradição tão nossa. Os livros já chegaram? Se vc puder me conte este acontecimento do Mário, quem sabe eu posso transformá-lo em conto, mudando o nome, é claro. Se vc achar que posso, mande-me por e-mail. Um grande abraço e obrigada por tudo. Não esqueça das fotos, alguém do grupo deve ter, não Orlando?

  4. MINHA AMIGA E PARENTA ALDA SIMPLISMENTE LINDO ESSE POEMA, NAS MINHAS ORAÇÕES, SEMPRE PEÇO AO ESPIRITO SANTO, QUE ILUMINE VOCÊ. CONTINUA ASSIM, DIVULGANDO CULTURA. QUE A SANTISSIMA TRINDADE, MARIA SANTISSIMA E SEU ANJO DA GUARDA DE PROTEGE. GRANDE BEIJÃO DO SEU PARENTE GILVAR GONZAGA.

    • Meu amigo e parente Gilvar, Também gostei do poema que fiz para nosso chão, nossa terra… Terra que amamos sem restrições, que nossos pais amaram, nossos avós, nossos bisavós, tetravós… E ela hoje é o porto seguro de muitos que aqui chegaram para ajudá-la a crescer. E deve ser por isto que ela os abraça num abraço apertado, no aconhego do seu chão. Obrigado Gilvar pelas orações, ando precisando muito, você sabe os porquês. Um grande abraço, meu parente. Alda

  5. Alda, ainda bem que temos você para resgatar essa Unaí que já não existe mais. Quem viveu no tempo narrado pode reconstruí-la na memória. Quem não viveu, pode imaginá-la. Será que um dia haveremos de recuperar a alma da Unaí de antigamente?

    • Recuperar,palavra que não só soa forte mas necessita de muita “luta” para trazer para nosso chão o que foi perdido pelo caminho. Estes caminhos são tortuosos e exigem união. Estas vias de comunicação a que me refiro são estradas construídas dentro de nossas lembranças e, para que a alma unaiense retorne ao seu lugar de origem, são necessários abertura de corações. Corações abertos e a alma unaiense voltará a dançar, com os braços acenando em linhas sinuosas como fumaça prolongada no desejo de ficar, de ser novamente plantada neste chão não mais cru, mas transformado pelo tempo e pela bem-vinda aculturação.
      Abraços

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