” O Ser e o Nada ”

Imagem retirada do google

Hoje resolvi existir.  Resolvi que vou “sofrer todas as dores do mundo . “ Encontrei na figura interna a minha existência. Debrucei sobre  o existir e derramei minha vida no chão agonizante da tristeza. A alegria me torna grande, a tristeza me faz ser maior. O ser triste é o natural humano, a alegria necessita ser fabricada, necessita de condição. Esta é a minha verdade, ou apenas o meu descompasso com o mundo. Eu e o mundo caminhamos sem o acerto do passo. Dois pra lá, dois pra cá não existe, há desarmonia na dança dos passos – Alegrias? Ou é o mundo que me deve o eterno, o impagável? Acho que resolvi existir pela impossibilidade do amor. O amor me tira da existência, existir no outro é o alívio de enfim morrer para mim, de não existir em mim, o outro também sou eu. Fico liberta de ser, ser só… Ser… Ser… Paradoxalmente ser o nada me leva a consciência do vazio e esta dor oca pode me levar ao entendimento da construção da vida. Dói, mas preciso da ferida aberta para me conhecer, me habituar a mim, ao mundo, o nascer e o morrer do dia. E preciso acostumar com a humanidade à procura da humanização, é preciso acostumar-me com o destino que é feito de luta e sofrimento, alegrias e questionamentos. Mas o estar na graça também acredito ser inerente ao ser  humano, mesmo que este estado seja breve, pouco tempo no paraíso. Depois que a graça se vai é que me revelo pedinte, implorante e mais tolerante, mais paciente com  a dor. Posso ser a dor, posso ser a alegria, posso ser tudo, posso não ser nada. Este é o absurdo da minha existência: ser pouco, ser muito, ser nada. Mas tenho a graça de ser infinitamente só.

Alda Alves Barbosa

2 pensamentos sobre “” O Ser e o Nada ”

  1. Santo Deus, Alda,

    Arthur Schopenhauer deve ter se revirado na cova… (vide comentários sobre o dito no google)

  2. SCHOPENHAUER E A MORTE

    Publicado na Folha de S.Paulo, sábado, 25 de fevereiro de 1978

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    Pensando bem, parece ridículo que a gente se preocupe com um espaço de tempo tão curto. Temer tanto, quando nossa vida ou a de outra pessoa se encontra em perigo, ou situar na tragédia o terror dramático causado pela morte, é uma coisa pouco séria.
    O excessivo apego à vida é uma cegueira e uma insensatez, e não tem outra explicação senão a circunstância de que todo o nosso ser é uma vontade de viver. A existência, embora com sua brevidade e insegurança, e mesmo sendo amarga como é, é nosso bem supremo e, assim, a vontade de viver é, por sua essência, inconsciente e cega. A inteligência não patrocina semelhante amor à vida. Ao contrário: -trabalha por combatê-la, deixando claro o escasso valor da existência, e contradizendo, dessa forma, o temor da morte.
    Quando a razão domina, e o homem desafia tranquilamente e com serenidade a morte, qualificamos sua atitude de nobre e grande, e celebramos então o triunfo da inteligência sobre a cega vontade de viver que, apesar de tudo, é a medula essencial de nossa existência. Quando, pelo contrário, a inteligência cede na luta, quando o homem deseja a vida a qualquer preço e se defende desesperadamente da morte, que vê, aproximar-se, desesperado com sua chegada, as pessoas sentem por ele certo desprezo. Seu comportamento, entretanto, não é mais do que uma submissão à essência universal dos homens e das coisas.
    Poderíamos, eventualmente, perguntar: – como é que o amor sem limites à vida e a aspiração de conservá-la por todos os meios e por todo o tempo possível, podem ser julgados sentimentos vis e desprezíveis? Como é que os prosélitos de qualquer religião declaram os que temem a morte indignos de suas crenças, se a vida é um dom dos deuses, pelo qual devemos agradecimentos à sua bondade suprema? Como é que pode parecer, neste caso, uma atitude nobre e grande, desdenhar esse bem?

    Essas considerações nos demonstram:

    1° – que a vontade de viver é a essência íntima do homem;

    2° – que essa vontade, em si, é inconsciente e cega;

    3° – que a inteligência é, primitivamente, um princípio estranho a essa vontade a ela se junta como um complemento;

    4° – que a inteligência está em conflito com a vontade de viver e que nosso entendimento lhe dá razão quando ela vence essa vontade.

    Admito que se o terror da morte se deve à idéia que temos do não-ser, igual terror nos deveria dominar ao pensar-mos na época em que ainda não existíamos, pois não há dúvida de que o “não-ser” que segue à morte não pode ser diferente do “não-ser” que precede a vida e, portanto, não pode ser mais temível.
    Enquanto não existíamos, a eternidade seguia seu curso. Isto, porém, não nos assusta. O que achamos cruel e insuportável é o pensamento de que depois do curto interregno desta existência efêmera, deve vir uma segunda eternidade, durante a qual também não existimos. Será que esta ânsia de viver decorre do fato de havermos gostado da vida, de tê-la achado amável? Indiscutivelmente, não, pois, em geral as provações suportadas nos deveriam predispor antes a lamentar profundamente o paraíso perdido do “não-ser”.
    A ilusão que abrigamos acerca da imortalidade da alma une-se sempre a de um mundo melhor, o que demonstra claramente que o nosso aqui não vale grande coisa. O problema sobre o que nos acontecerá depois da morte já foi exaustivamente tratado, em livros e conversas, e tratado mais do que o problema do que teríamos sido antes de nascer. Todavia, teoricamente, ambos os problemas despertam o mesmo interesse e oferecem a mesma razão de ser, e quem resolvesse um deles, não teria dúvidas quanto à solução do outro.
    Quantas admiráveis declamações temos ouvido sobre a repugnância de admitir que o espírito humano, que abarca o Universo, e que, em suas sublimes concepções, se eleva tão alto, há de acabar sepultado com o corpo. Mas o que ninguém se lembra de dizer é que esse espírito humano deixou passar toda uma eternidade antes de aparecer sobre a Terra, com todos os seus atributos, nem que o mundo, durante toda essa eternidade, tenha passado sem ele.
    Não conheço problema que mais se imponha a qualquer inteligência livre de preocupações arbitrárias do que este: – antes de meu nascimento, transcorreu um tempo infinito. Que era eu, durante todo esse tempo?… A eternidade sem mim, “a parte post”, não deveria ser mais aterradora do que a eternidade sem mim “a parte ante”, uma vez que uma não se diferencia da outra senão pelo sonho efêmero da vida… “A morte não nos importa” – ensina Epicuro. E explica: – “Enquanto existimos, a morte não existe, e quando ela chega, não existimos nós”.

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    Arthur Schopenhauer (1788-1860) é o último dos idealistas alemães, de resto independente e em contínua polêmica com o grupo. Nasceu em Dantzig, de pai rico e mãe culta. Iniciou-se no comércio, que logo abandonou, para entregar-se à filosofia, que estudou em Goettingen e em Berlim. Espirito agudo e engenhoso, com acentuado gosto literário, terminou sua obra-prima. “O Mundo Como Vontade de Representação”, aos 30 anos. Deixou Berlim durante a epidemia de cólera que matou Hegel, mudando-se para Frankfurt. Sua filosofia casuística, pessimista e agressiva, foi servida por uma forma literária brilhante. Nos últimos anos da vida, tornou-se famoso e exerceu grande influência no pensamento de seu tempo. É de seu livro “O Mundo Como Vontade de Representação” o texto que hoje publicamos.

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