ASFALTO CHEGA AO BOQUEIRÃO

Segundo o historiador Álvaro Rodrigues Barbosa (meu pai),” o passado que se registra nos anais da história do Boqueirão que não foi escrita, é recordação saudosista do regionalismo histórico que os avós dele contavam efetivamente com a precisão de um livro aberto. É recordação melancólica como gorjeio de pássaros na árvore florida no entardecer do dia. É reminiscências de antepassados que as gerações renovam e conservam como preciosidades respeitáveis e inesquecíveis. Tudo que é antigo, tudo que pertence ao passado e que o horizonte pode envolver, acaba sendo igualmente venerável. Só podemos interpretar o passado, pelo que há de mais forte no presente e somente pela extrema tensão de nossas faculdades mais nobres podemos discernir aquilo que, no passado, é digno de ser conhecido e conservado.”
Pois é pai, como sua filha e herdei de você o amor pelos livros, pelas letras, também herdei  a sua tendência  de que devemos conservar as nossas tradições porque o passado é determinante para chegarmos ao futuro tendo conhecimento de nossos valores e portanto, sabedores da nossa essência que nos faz ser o que somos.
Século XIX e o Boqueirão já emprestava seu chão para o descanso dos boiadeiros e toda a nossa história é desenvolvida em torno deste distrito, o mais antigo do nosso município. E este passado o povo não deixou morrer: A tradição da Festa de Santo Antonio do Boqueirão resistiu a todo tipo de intempéries e sobreviveu. O povo a abraçou e quando o povo abraça os nós são dados, não há como desatá-los. E hoje, no século XXI, o asfalto chega a este pequeno local onde principiou as nossas tradições, a nossa herança de hábitos, local onde  todos os anos se realiza a festa e ou a romaria de Santo Antonio.
Este ano possivelmente a aglomeração de pessoas aumentará , pois o conforto de se locomover em um lugar pavimentado, com uma composição adequada ,facilitará o vaivém daqueles que vão rezar e dos que vão festejar a data, apesar de que o asfalto tira a “raiz” do que sempre foi o boqueirão, um lugar  onde se reza ou festeja em meio a poeira. Não estou aqui dizendo que o esfaltamento  não é bem-vindo, apenas constato que ele tira a essência do local, da festa, da romaria… O progresso chegou para chegar ao Boqueirão, mas lá dentro reinará o jeito de ser e de viver dos nossos antepassados, é claro, salvo algumas modificações na estrutura que se fizeram necessárias.
Costumo dizer que a festa religiosa que se celebra no Boqueirão, fica entre o Santo e o profano, mas é justamente esta ausência de preconceito que faz a romaria ser o que é: o encontro de vertentes, sem perda do significado religioso, sem violar o sagrado.

                                                                Alda Alves Barbosa

2 pensamentos sobre “ASFALTO CHEGA AO BOQUEIRÃO

  1. Alda, concordo com você que o asfalto tira o jeito que sempre foi o Boqueirão, um lugar onde se festeja e reza no meio da poeira, mas como vc acho que mudanças também são bem-vindas, acabaremos acostumando, é mais saudável.

    • Arnaldo, obrigado mais uma vez pela sua participação, seu comentário. Realmente penso que o asfalto dentro do espaço físico dos festejos tira a singularidade do Boqueirão. Mas não há como deter o progresso, principalmente este tipo de melhoramento, um pouco da essência acaba, mas fica o jeito de comemorar, a dualidade da festa: o sagrado e o profano, duas vertentes que convivem e se relacionam bem, sem tirar a sacralidade da homenagem a Santo Antônio.
      Obrigada.

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