QUANDO O AMOR ACABA

Superar a dor de um amor que se foi, que os laços foram desfeitos, equivale a se recolher numa clausura. Fecha-se no quarto, não quer ver ninguém, não quer saber o que está acontecendo no mundo, pois o pior já aconteceu, dentro de si a saudade já fez morada,  o mundo acabou, agora sua residência é num vale de lágrimas. Recusa convites para sair, para festas, barzinhos e só dá atenção àqueles amigos que permitem o abraço, os amigos travesseiros, que além do abraço, não se importam de receber os rios  que transbordam de seus olhos provenientes da tristeza ancorada no coração.
Consequentemente conversa-se pouco, alimenta menos ainda e vem o emagrecimento involuntário, antes tão necessário, mas agora ele acontece na hora e no jeito errados. Não há o que comemorar, alardear a nova forma física, pois ela provém de uma tristeza profunda, de um corpo encabulado. A tristeza também muda a fisionomia, passamos a ser um par de olheiras e uma boca que emite sons miúdos: suspiros e gemidos.
Só nos resta arrumar um jeito de seguir vivendo. Estudar uma forma para manter-se de pé ou definitivamente cair. Nesta dor que dói a alma, temos o desejo de chegar ao fundo de nós mesmos, mas este fundo de nós está em outro que deixou de nos amar e que se foi levando tudo que nos pertencia. Ficamos sem o nosso “eu”, ele foi junto com que nos traiu com o desamor.
A dor do amor nos impede de cumprirmos a rotina, forçosamente  ficamos de pé. É luto sem enterro, é um luto sem cadáver, é um luto sem missa de sétimo dia. É um luto sem familiares e amigos perto para tentar consolar a perda. É um luto sem pêsames. Um luto que se tem que trabalhar no dia seguinte. Um luto em que o sofredor poderá encontrar com seu sofrimento vivíssimo a qualquer hora, em qualquer esquina.
Acorda sem querer levantar porque levantar implica em enfrentar o dia e o dia é pesadelo. Dorme-se com a sensação de que tudo que está vivenciando não passa de um grande engano. Difícil acostumar com esta fase de transição em que se tem certeza que o que virá nunca poderá ser como antes. Não se faz outra coisa a não ser pensar e repensar no tempo que já se foi: rever fotografias, reler bilhetinhos, repisar tudo que já foi vivido a dois. São meses de exílio, de reclusão, para mostrar que sabemos sofrer a sério por alguém e abdicar das coisas boas da vida até que o sofrimento ceda lugar à calmaria.
A dor do amor não é uma encenação. Ao passarmos por ela termina a fase lúdica da confiança e da esperança ingênua. Quem sofre este descompasso nunca mais terá uma alegria plena. Uma saudade vai nos tirar a velocidade dos sentidos, da alegria. Tudo é demoradamente pensado, agregamos nosso ser à sutileza, o tolhimento do abandono. E quando no futuro encontrarmos outro amor poderemos amar melhor porque não estaremos mais sozinhas. Teremos como companhia e consultoria nossa dor.

                                                                                                                       Alda Alves Barbosa

4 pensamentos sobre “QUANDO O AMOR ACABA

  1. Muito lindo e triste o que você escreveu, mas encontrei uns dizeres de Fernando Pessoa que me levou a pensar. Ele diz assim: “Enquanto não superarmos a ânsia do amor sem limites, não podemos crescer emocionalmente. Enquanto não atravessarmos a dor de nossa própria solidão, continuaremos a nos buscar em outras metades. Para viver a dois, antes é necessário ser um.” E penso que sendo um aprenderemos a conviver com a dor do amor e saberemos buscar outras metades sem tanto sofrer.
    Bjos…

  2. Minha linda, não existe dor maior do que a perda de uma grande amor, assim como não existe sensação melhor do que um amor bem correspondido. Eu sei que tudo o que você acabou de escrever não passa de fictício, mas tem tudo a ver com o nosso dia a dia. Pois quem nunca sofreu por amor que atire a primeira pedra não é mesmo ? Um grande beijo pra você….!!

  3. É verdade meu lindo, um sentimento tão bonito, tão necessário e sempre causa dor. Sim, sempre, porque o medo de perder está em cada instante do relacionamento, a solidão permeia os pensamentos e o sofrimento vem por antecipação. Sabemos que nada de amor tem ação duradoura, mesmo a continuidade dos corpos juntos não tem que necessariamente que a alma esteja presente. O corpo fica, mas a alma voa. Apesar do medo arrisca porque não nascemos para ser sós, apesar de sermos sós.
    Criamos a ilusão da companhia…
    Beijos

  4. Minha querida Solange, não acredito em metades de alma, acredito em seres completos. Não temos como ser metade, somos inteiros no nada ou em tudo.Sabe por quê penso assim? Porque mesmo no amor um mais um é igual a dois, senão um deixa de existir ou vai ser realmente metade, vai viver no outro ou deixa a metade dele no outro.Somos Solange a solidão, temos companhia, é diferente. O outro não adoece em seu lugar, não sofre em seu lugar, nem vai para o céu em seu lugar quando Deus chamar. Somos sós sim, temos amigos, parentes, mas só Deus é verdadeiramente a nossa companhia. Chegar a esta conclusão dói, mas sempre foi assim… Não nos bastamos, precisamos do outro sim, mas existe o limite para este “precisar”. Aprender a ser só, mesmo acompanhado, esta é luta do homem!
    Esta é a minha forma de pensar, mas certamente respeito a sua. Está vendo? Não existe metade, o outro não pode ser preenchido pelo que eu penso, mas pelo que ele pensa. Quando um quer que o outro seja ele, um desaparece e quem quer desaparecer, anular-se? Se acontece isso, logo, a insatisfação começa e o fim fica mais próximo.
    Um grande abraço

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