… UM SONHO, UMA RECORDAÇÃO

ÁLVARO RODRIGUES BARBOSA – 25/01/1983

Numa noite de novembro do ano findo, eu dormia tranqüilamente. Uma aparição ou uma manifestação súbita de visão interrompe a paz do meu sono. Longos anos haviam-se passado e ali, em frente à vida, a luz e movimento, a sombra, a morte renascida na aparência de corpo físico. Na fazenda, onde vivera a visualização subjetiva de percepção anterior transformada em imagens reais, mantém-se inalterada. Ressaltava a velha e frondosa árvore que por tantas e tantas vezes servira-me de refúgio nos momentos de angústia e solidão da alma. Desafiando o tempo e as intempéries, lá está ela de pé, altaneira, sobrepujante, com sobejos de rubras flores desfiguradas, testemunhando dias lúgubres que se foram… É em suas desnudas raízes que ora me encontro sentado em absorta contemplação em reviver o passado amargo de época tão distante, presente ao acontecimento. Dependente do acaso ergo os olhos e diviso ao longe um vulto, uma sensação de semelhança de mulher que rapidamente se aproxima e sem nada dizer senta-se ao meu lado. A lividez do rosto e o estranho olhar revelam ansiedade, incerteza, apreensão. Tem estatura mediana, corpo escultural, tez clara, cabelos castanhos longos caídos sobre os ombros nus e olhos verdes, profundos. Por alguns instantes ainda permanece emudecida, em êxtase, mas logo se conscientiza do paralelismo psicofísico, recupera a memória e a imagem fisionômica enquanto procura justificar porque usa roupas extremamente singelas e traz os pés descalços. Agora está linda, linda e simples como um campo florido molhado do orvalho da noite. Na contingência do momento ela sorri, o mesmo sorriso deslumbrante como o despertar da aurora no purpúreo arrebol. O reflexo do passado na utopia do sonho leva-me ao devaneio lascivo e tento tocá-la. Assustada se levanta, olha nos meus olhos com o olhar místico e diz serenamente: – Não, não pode, preciso ir, até breve. E desaparece para um pouco além no verde tapete de relva que vai ater-se ao riacho, erguer o braço e me acenar com a mão, a mesma mão que se uniu a minha pelo matrimônio na hora do “Ângelus” da tarde de primeiro de fevereiro de 1940, aos pés do altar da Virgem da Igrejinha branca de nossa terra. Desperto, abro os braços… Ninguém! Abraço o vazio, a desilusão, a tristeza. A saudade, essa divina essência, esse sino que plange no templo do meu peito, fica a iluminar o caminho daquela que numa melancólica manhã chuvosa e fria de março, partiu para não mais voltar. Quis o destino que buscasse lenitivo para os meus sentimentos aos pés do altar da mesma igrejinha branca, no mês de flores, mês de Maria. Um dia, em breve talvez porque a tarde de minha vida se agoniza, longe, bem longe das paixões terrenas, quero no infinito estar ao lado das duas, como infinito é o meu amor por ambas.

4 pensamentos sobre “… UM SONHO, UMA RECORDAÇÃO

    • Orlando, gostou? Ele escreveu para a primeira esposa dele. Ela faleceu quatro anos após o casamento, deixando um filho, o Zézé. Ela era irmã de Cota Santana e Pachá, você se lembra deles? Ele era um apaixonado, viveu todo o tempo pensando nela. Um dia eu disse a ele que era porque ela faleceu jovem e bonita, o casamento não teve tempo de desgastar, de viver a rotina… E como faleceu jovem, não viu as rugas fincando a face, nem a a flacidez dos braços, pernas, enfim, na memória dele ficou registrada a beleza, a juventude. Mas foi um homem solitário e a filha dele herdou a solidão, o jeito dele de ser e viver a vida.
      Um afetuoso abraço

  1. Alda,
    Valeu , eu sempre admirei o Sr. Alvaro, mas não conhecia o lado apaixonado dele.
    Orlando-DF

    • Oi Orlando, estamos arrumando o site, tá bom? Olha o meu pai era um poeta, um sonhador, um amante deste chão. Quantos poemas e textos dele temos guardados! Ele tinha uma paixão por esta terra que não consigo arrumar palavras para dizer-lhe quanto e como era o seu querer por este cerrado! Vou postando devagarzinho, quando der conta de lidar com a ausência dele…
      Esperei você para a festa de Santo Antonio do Boqueirão. Não veio ou não entrou em contato comigo? Se aconteceu a segunda…
      Um grande abraço

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