DEVOÇÃO

Junhos, outros dias, outros brotos, outras esferas. Mês permanente na vida dos unaienses: é festa de Santo Antônio do Boqueirão, retrato centenário dos ontens, ontens cheios de agoras.
Santo Antônio do Boqueirão virou raiz, enraizado no chão cru, coração cheio de água, pés de gigante, outrora patrimônio dos boiadeiros, descanso e berço do canto dos berrantes, fortaleza de suas solidões.  Santo Antônio espera, numa espera paciente de quem já é santo, ali a vida espera repovoando-se na vastidão do céu, na pequena fé, fé de consolação. Barcos
deslizam sobre as águas do Rio Preto, rio que parece mar… Levam homens, mulheres, crianças e sonhos, os pecados vão sendo deixados para trás. Passageiros de fé são transportados em embarcações terrestres, navegando no rio de terra alaranjada num humano desejo de suprir suas carências. O chão incendiado do sol em agonia, devotos descalços atropelam seus  pés e insistem na andada; força que não é simbólica, o suor também não, a fé tem o poder de nos agigantar. Um canto… São os carros de bois chegando, num cantar triste, doído, canto do sertão. No galope chegam os cavaleiros montados em seus cavalos, selas brilhando a luz do sol, botas ferradas, olhos de sertanejo, olhar de cristão!
É mar no Boqueirão, mar de gente, parece idolatria, é não, são coisas que ao silêncio pertencem. O sino tange, a procissão começa, Santo Antônio veleja, veleja em meio a tanta gente, veleja em seu andor de flores acompanhado por homens, mulheres e crianças que seguram suas velas acesas, iluminando seus escuros caminhos. A procissão segue devagar, passo a passo, e que a acompanha vai arrastando sua vida até que ela chega ao fim.
Eu queria que junho não me afetasse tanto, queria aprender a não desistir, queria viver a minha vida da forma dos simples, queria ser presença na vida daquele que se arrasta ao meu lado, queria me permitir construir a maquete dos meus sonhos e depois apresentá-la a esta bonita procissão.
No adro da igreja há cervejas, pinga, churrasco e músicas… músicas que não são sacras… A procissão terminou, o povo de Deus vai farrear. Nos olhos de Santo Antônio uma lágrima desce fugazmente: “Êta humanidade! É preciso perdoar setenta vezes sete!”

Alda Alves Barbosa

2 pensamentos sobre “DEVOÇÃO

  1. Belo texto sobre o Boqueirão. É deste jeito mesmo, só não temos mais os barcos. Mas parabenizo você pela sensibilidade ao escrever sobre uma festa tradicional como esta do Santo Antônio do Boqueirão. Deus te abençoe muito

  2. Obrigada Maria do Carmo. Eu não conheço o Boqueirão, mas talvez esta fidelidade que você diz que descrevo o Bouqueirão, seja porque o meu pai sempre ia e chegava eufórico contando tudo, inclusive minúcias dos acontecimentos ali. Em um texto dele para um jornal ele diz assim:”terminada a festa, Boqueirão volta ao isolamento, a solidão e ao vazio… Escreveu muito mais que isso, era um apaixonado por tudo deste chão. Não está mais aqui entre nós..
    Obrigada pela sua participação

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