SAUDADE ATRASADA NÃO É AMOR

Tenho uma amiga que esperou cinco anos para que o amor se resolvesse por ela. Moraram todos estes anos juntos, mas faltava tudo ou quase tudo: não havia cumplicidade na relação; faltava ser encontrada pelo seu perfume. Faltou que ele lhe dissesse que não conseguiria viver sem ela. Faltou dizer que a vida sem ela não tinha graça. Faltou dizer a ela que na sua ausência sentia saudades.
Amaldiçoava todas estas faltas silenciosamente. Suportava as olheiras, envergonhava de si mesma todos os dias durantes estes longos cinco anos. Tentou ser mais forte do que na realidade era, fez planos, planejou outros e achou que a loucura mais dia menos dia vinha visitá-la. Não partilhou estas insatisfações com ninguém, não dividiu, não partilhou e enlouqueceu. Sofreu sozinha para que ele não visse que ela sofria.
Um dia desses ela encontrou com ele no ônibus. Justamente num lugar público onde as pessoas não tinham nada a ver com isso, ele finalmente expressou sua paixão, sua saudade, seu amor, tudo que ela esperara durante anos ouvir. Até mesmo aquelas que ela não tinha coragem nem de pensar por achar que estava se valorizando demais. Perguntou até se ela continuava usando o mesmo perfume. Ela sorriu: “sim, eu não mudei de perfume”. Talvez tenha mudado em muitas outras coisas, mas de perfume não. Ele sorriu, achou que o amor dela por ele ainda era o mesmo, intenso, que o aceitaria de volta. Poderiam recomeçar ou continuar onde pararam.
Ela tirou com delicadeza os braços dela que descansavam sobre seus ombros. Delicado e terno foi o seu gesto. Gesto que soube avançar através dos espinhos e encontrou a vida na copa das árvores, bem mais alto que o vento.
Uma saudade atrasada não é amor. Saudade atrasada é amizade depois do amor que não foi amado.

                                                                 Alda Alves Barbosa

2 pensamentos sobre “SAUDADE ATRASADA NÃO É AMOR

  1. Bom dia minha linda ! Que coisa linda que vc escreveu. Bonita e comovente. Mas a vida nos ensina a valorizar o que perdemos , mas infelizmente só após a perda. Vivemos sempre com essa triste realidade, a de valorizar apenas quando o sentimento do outro já se foi…Parabéns por tudo que vc escreve…

  2. Verdade, meu lindo. As vezes lemos ou escrevemos alguma coisa que na realidade serve para nós mesmos. Carinho, amor, respeito nunca é demais. O outro nos dá porque nos ama, sem focar na retribuição, mas como não ter amor, e todos estes sentimentos por alguém que sente tudo isto por nós e além de todos estes sentimentos ainda existe o respeito pelo que nós somos, com as nossas limitações, com a nossa indiferença. Um conto, um caso serve para nos acordar das certezas … Certezas são tão incertas! Um dia a pessoa se cansa e vai a procura do retorno de outro… Então acordamos com o pesadelo de não ter mais aquele ser que nos deu tanto amor, carinho… E nos aceitou tanto!
    Beijos

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