Reflexão

ÚLTIMOS DOIS PARÁGRAFOS DO TEXTO DE JOÃO UBALDO RIBEIRO

“DESONESTIDADE É CULTURA”

Jornal Estado de São Paulo – 26/06/11

 

“…Em todos os órgãos públicos, ao que parece aos olhos já entorpecidos dos que leem ou assistem às notícias, se desencavam, todo dia, escândalos de corrupção, prevaricação, desvio de verbas, estelionato, tráfico de influência, negligência criminosa e o que mais se possa imaginar de trambique ou falcatrua. E em seguida assistimos à ridícula, com perdão da má palavra, microprisão até de “suspeitos” confessos ou flagrados. A esse ritual da microprisão (ou nanoprisão, talvez, considerando a duração de algumas delas) segue-se o ritual de soltura, até mesmo de “suspeitos” confessos ou flagrados. E que fim levam esses inquéritos e processos ninguém sabe, até porque tanto abundam que sufocam a memória e desafiam a enumeração.
Manda a experiência achar que não levam fim nenhum, fica tudo por isso mesmo, porque faz parte do padrão com que nos domesticaram (taí, povo domesticado, gostei, somos também um povo muito bem domesticado) saber que poderoso nenhum vai em cana. E é claro que, por mais que negue isso com lindas manifestações de intenção e garantias de sigilo (como se aqui, de contas bancárias de caseiros a declarações de imposto de renda, algo do interesse de quem pode ficasse mesmo sigiloso), essa ideia de esconder os preços das obras da Copa tem toda a pinta de que é mais uma armação para meter a mão em mais dinheiro, com mais tranquilidade. Ou seja, é para roubar mesmo e não há o que fazer, tanto assim que não fazemos. Acho que é uma questão cultural, nós somos desse jeito mesmo, ladravazes por formação e tradição.”

REFLEXÃO

Fazendo uma analogia do que um dos maiores escritores brasileiros escreveu sobre a   desonestidade e a permissividade de nós brasileiros, fico aqui pensando nas incontáveis vezes que me indignei com os nossos brasileiros “recolhidos” nos aeroportos de países estrangeiros, principalmente os de países europeus. Sabia que a desconfiança tinha fundamento, ela era alicerçada em uma verdade difícil de aceitar: não confiam em nós brasileiros porque somos oriundos de um país cultuado pela desonestidade. Parafraseando o escritor João Ubaldo, quem quiser inclua nesta lista imensa, e se achar que não merece ser taxado com um adjetivo tão depreciativo, tão nauseante se exclua, mas sem manipular a honestidade que acha ou que realmente tem; exclua com a honestidade de não ser desonesto.
Sejamos “politicamente corretos” ao nos avaliarmos. Difícil? Sim. Afinal a nossa desonestidade faz parte da nossa cultura. Ligamos a TV para aprendemos meios desonestos para atingirmos um fim mais desonesto ainda. Lemos jornais para fixarmos melhor “como se trabalha roubalheiras” sem quem conseqüências desagradáveis nos atinjam. Para fazermos pós-graduação, temos escolas espalhadas neste Brasil inteiro que nos ensina a trapacear com mais conhecimento, com menos riscos, com mais impunidade: nestas escolas não faltam carteiras, merenda escolar, professores que são verdadeiros educadores das matérias que sempre foram recicladas neste país: DESONESTDADE E IMPUNIDADE.
Achamos DE GAULLE injusto com o nosso país quando ele disse que “o Brasil não era um país sério.” Como ele ficou sabendo disto? Pelo método científico da observação, ou será porque fizeram a ele uma “PROPOSTA INDECENTE?”

 Alda Alves Barbosa

6 pensamentos sobre “Reflexão

  1. É minha amiga, infelizmente contamos com essa cultura que tanto nos dissipa, vamos, a cada passo, acabando com tudo que somos em nome de interesses individuais dissimulados e desonestos.

    Estou lendo Cem anos de solidão de Garcia Marquez, lá (no livro) ao narrar as vicissitudes de toda uma geração familiar, parece demonstrar os dramas que cada qual viveu. Parece que estamos fadados a viver desse vírus da desonestidade que envolve nosso meio cada vez mais, nesse ponto somos solitários e febris.

  2. Adriano, ainda conseguimos indignar e isto é muito bom. Mas o que fazer desta indignação se o povo paralisou, petrificou… O “não tenho nada a ver com isso” é a ignorância adotada em nosso país de analfabetos. Todos temos muito a ver com isso, é o nosso país, é o nosso dinheiro, é nossa a honra, porque diante de tantos furtos e roubos, não conseguiram levar nossa vergonha. Como dizem alguns “Estamos em pleno século XXI”, mas fico a perguntar: este século é o século do pode tudo, do salve-se quem puder?
    Abraços meu querido amigo

  3. É impressão minha ou é uma minoria que se indigna com esse estado de coisas, Alda? No meio político, parece que a desonestidade e a velhacaria passaram a ser pré-requisito para concorrer a cargo eletivo. O sujeito honesto é tido como ingênuo. Parabéns pela reflexão! Que outros possam também refletir sobre esse triste traço de nossa cultura.

    • Paulo, estava conversando hoje com um amigo sobre a pressa com que as pessoas olham para o outro, para as coisas… Estão todos olhando para o próprio umbigo. Refletir? Sobre o quê? Prá que sonhar, prá que desejar? Todos são iguais, subtraem mesmo e se não subtraem são ditadores em época de democracia. Passam pelas ruas não veem o lixo, a falta de flores, a falta de árvores, a ausência de cultura (qualquer versinho vira um poema) nos fazem engolir besteiras… Mas prá quê dizer que está faltando? Que isto é ruim?” Boca fechada não entra mosquito, melhor ficar no meu canto e sair dizendo baboseiras”, tudo em nome do “Não tenho nada com isso”. Saúde? Meu Deus, que horror!!! Falta tudo, só não falta a falta de tudo.
      Com muito carinho

    • Olá Antonio, Como vai? Ser mineiro é ser goiano tbm, claro na minha visão. O jeito de ser, a hospitalidade, a comida… Claro que as diferenças existem, mas se aproximam muito. Guimarães Rosa , eu concordo com ele dividiu minas Gerais em duas: As minas e as Gerais. Nós aqui de Unaí que estamos no noroeste mineiro e o norte de minas somos as gerais, o restante minas. Mas o norte das gerais é lindo, cultura bonita, mas a pobreza impera. Não cuidam da história que reside naquele pedaço. As cidades consideradas “circuito das águas ” são lindíssimas. Se você se considera um mineiro de coração está precisando vir conhecer as minas e as gerais.
      Obrigada pelo carinho, pela visita. Volte mais vezes, dê sua opinião e venha nos visitar.
      Um abraço

Sua opinião é importante para nós. Participe com um comentário!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s