AS MORTES SIMBÓLICAS


O homem não tem consciência apenas da morte enquanto fim de sua vida. O conceito de finitude o acompanha em tudo que faz: é significativo o tempo devorando o que estão inseridos nele. A morte como o ápice do processo de vida, é antecedida por diversas formas de “morte” que permeiam o tempo todo a vida humana. O próprio nascimento é a primeira morte, no sentido de ser a primeira perda, a primeira separação. Separado do cordão umbilical o processo de enfrentamento do novo ambiente se inicia. A oposição entre o velho e o novo repete indefinidamente a primeira ruptura e explica a angústia do homem diante de seu próprio dilaceramento interno: ao mesmo tempo que anseia pelo novo, teme abandonar o conforto e a segurança daquilo que lhe é tão familiar. Os heróis, o santos, os artistas, os revolucionários são sempre os que se tornam capazes de enfrentar o desafio da morte, tanto no sentido literal como no simbólico, por serem capazes de construir o novo a partir da superação. O existir humano consiste no lançar-se contínuo às possibilidades, entre as quais se encontra justamente a situação- limite representada pela morte, o qual possibilita o olhar crítico sobre o cotidiano. Segundo o filósofo Heidegger. “Só o homem autêntico enfrenta a angústia e assume a construção da sua vida”. Isto quer dizer que para ele o homem inautêntico foge da angústia, refugia-se na impessoalidade, nega a transcendência e repete os gestos de “todo o mundo” nos atos cotidianos. No mundo massificado do homem inautêntico, até a morte é banalizada, e dela se fala como se fosse um acontecimento genérico, longínquo e impalpável. A impessoalidade tranqüiliza e aliena o homem, confortavelmente instalado num universo sem indagações. Há a recusa de refletir a morte como um acontecimento que nos atinge pessoalmente. Em nenhum tempo a recusa do enfrentamento da própria finitude, do morrer humano foi tão visível! Resgatar a consciência da morte no mundo atual, o que não deve ser entendido como preocupação mórbida, doentia do homem que vive obcecado pela morte inevitável. Esta atitude seria pessimista e paralisante. Ao contrário, ao reconhecer a finitude da vida, reavaliamos nosso comportamento e escolhas, e podemos proceder a uma diferente priorização de valores.

Alda Alves Barbosa

Paráfrase – Extraída do livro Filosofando
Maia Lúcia de Arruda Aranha
Maria Helena Pires Martins

4 pensamentos sobre “AS MORTES SIMBÓLICAS

  1. Que belo trecho, realmente reconhecer a finitude da existência é um passo fundamental para o levar da vida, como diz Dostóievski o segredo da existência é saber para que se vive. Viver pensando ser infinito é atirar de lado os percalços da existência, com a consciência de que em um momento tudo acaba é fundamental para os valors do dia-a-dia.

    Cada dia vivido é um dia a menos na nossa vida.

    • Adriano, viver como se a vida fosse infinita, negar a morte nos faz pequenos. Quando reconhecemos a nossa perenidade começamos a mudar nossos valores, modificar a nossa existência para sermos felizes e fazer os outros felizes. Então como diz o nosso Dostóievsk, saberemos o porque da vida, pelo ao menos da nossa. E esta consciência, voltando a Dostóievsk, é a ressurreição, o nascimento para uma vida nova ou o renascimento de conceitos e atitudes.
      Somos finitos, é bom que tenhamos consciência disso, quantos seres considerados por si mesmos “superiores” viveriam apenas como gente comum, o que na verdade o são.
      Com muito carinho,

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