DÁ UM TEMPO… Ô TEMPO

Ultimamente tempo, ando observando-lhe muito. A rapidez com que passa, eu diria que “foguetemente”, vai arrastando tudo e todos. Falo palavrões e não me escuta. Ainda bem, porque tenho certeza que se me ouvisse, o seu poder de destruição seria maior: aceleraria mais, correria mais, e em vez de tempo seria vendaval, tal o seu espírito de desagregação… Ainda bem que você é surdo ou finge ser, porque quando me olho no espelho não me reconheço, não vejo a criança, não vejo a adolescente, não vejo a mulher de trinta. Fico cega! Não, não é cegueira visual, mas sim cegueira de rejeição. Como posso ver-me ali murchando com indiferença? Você murchou o meu corpo, murchou minhas alegrias, murchou… Tudo. Acho que não sou mais gente; sou uma fruta, fruta do cerrado que ninguém quer comer, porque desconhece as propriedades vitamínicas dela. Rejeitam a fruta porque ela não tem um visual de fruta gostosa, saborosa; o visual dela atua contrariamente aos benefícios. Sou uma fruta murcha, enrugada; sou um jenipapo. Está rindo de mim senhor tempo? Tem certeza que nunca vai sobrar para você, não é? Admito que seja verdade, mas até quando? O mundo está mudando, as estações também, quem garante que não vai sobrar para você? E se todos nós, com estes revertérios do mundo, permanecermos infinitamente vivos e jovens? Certeza! Com todas estas mudanças, no momento você só tem duas; murcha as pessoas, faz delas jenipapos e as devolve ao pó. Sei que deveria silenciar-me, pois se você ou sua companheira Tânatos me escutarem e souberem o que penso sobre seu trabalho, vai revidar implacavelmente, correndo mais do que você se considera necessário para murchar-me mais rapidamente para enterrar-me apenas em dois palminhos; não há necessidade de mais, tão encolhida estarei para o abraço da terra. Olha, não estou lhe pedindo arrego, estou apenas expondo meus sentimentos para não ser enfartada; faça o que quiser, este é o seu trabalho: tornar as pessoas tristes com a aparência, reféns do esquecimento, dar a elas a aposentadoria para que elas sejam chamadas de tias e tios por quem não são seus sobrinhos, modificá-las da condição de mãe ou pai para serem filhos dos próprios filhos… Quantas transformações negativas! Por que o vento não o leva? Ah sim! Ele faz parte da família que destrói gente para construir cemitérios ou crematórios; depende da condição econômica. Sabe, vejo os meus ex-namorados, minhas amigas… Dá bem uns silos de jenipapos! E pensar que um dia fomos jovens, e se você não existisse seríamos eternos saradões e saradonas, sem suas pinceladas em nossos corpos, em nossa memória, em nossas vidas…Ora, dá um “time”, dá!

Alda Alves Barbosa

4 pensamentos sobre “DÁ UM TEMPO… Ô TEMPO

  1. Boa noite minha linda ! Que coisa maravilhosa que você escreveu para que todos nós possamos admirá-la cada vez mais. Espero que esse tempo possa lhe dar um tempo para que você não vire um jenipapo e possa nos agraciar sempre com seus belos contos. Que você seja sempre essa fruta gostosa que todos gostamos de comer que é a sua literatura. Muito obrigado….Beijos

  2. Meu lindo, o tempo também acaba com a poesia dos olhos e do coração do poeta!! Muitas vezes ele nos tira a capacidade de pensar, o que obviamente a capacidade de criar acaba. Me leia enquanto o pincel do tempo ainda não deixou tantos rastros, porque se Deus me der mais tempo de vida, um dia serei forçada a aposentar os poemas, os contos… Só peço a Ele que segure este tempo, que ele passe devagarzinho como a brisa leve, suave…
    Obrigada, beijos

  3. Como o tempo mexe com todos nós. Como somos impotentes à sua frente. Com ele temos uma relação de amor e ódio. Gosto muito daquela canção de Nana Caymmi, chamada resposta ao tempo, ela decifra muito bem a relação de um e outro: http://letras.terra.com.br/nana-caymmi/47557/

    Parabéns pela reflexão, minha amiga.

    E que o tempo permita que sejamos infinitamente jovens na alma, mesmo quando o corpo padecer.

    • Adriano como tudo nesta vida , o tempo também tem seus prós e contras. Prós porque o passar dele nos ajuda a esquecer ou amenizar as dores, os sofrimento das perdas, das mortes diárias. Contras, é tudo aquilo que deixei aí; o aspecto físico se não formos fortes pode nos traz grandes problemas psicológicos, ainda mais nos dias de hoje onde a beleza das formas, o ser jovem é tão valorizado! Esquecem que a maturidade convive com as experiências, portanto conseguências. E quando se trata da mente? Esquecimento… Prolongar o tempo das pessoas apenas para que ela respire e prolongamento ignorante, prolongar sofrimentos… Não consigo entender porque respirar tanto tempo e viver muito menos que o respiro.
      Com carinho,

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