O INDISFARÇÁVEL PESO DAS AUSÊNCIAS

Imagem noturna da Rua Alba Gonzaga – Centro

Quando posso gosto de dar umas voltinhas pelos arredores de onde moro. Não vou muito além porque tenho motivos para limitar o passeio em apenas poucos quarteirões. Durante o percurso, olho para um lado, inspiro, respiro, olho para o outro lado e repito o procedimento anterior… Olho para o céu e vejo as estrelas, admiro-as; procuro à lua, quando ela está visível tenho ímpetos de acariciá-la tamanha a beleza, tamanha a distância entre mim e ela… E talvez por isto ela seja objeto de minha eterna busca… eu a chamo de “poeira dourada.” Durante este espetáculo tão natural percebo minha cidade… Ela está perdendo aquele jeito interiorano. Nossos hábitos, principalmente eles, estão longe de serem hábitos de um lugar com aproximadamente 80.000 habitantes. Aqui nos vestimos de liberdade, apenas isto, liberdade do supérfluo, nada mais profundo, mais questionador. Em contrapartida vejo a falta de limites do desamor, e me pergunto: “Até quando vamos permitir que seqüestrem a nossa cidade?” Precisamos, nós, o povo, termos pensamentos e ações mais avançadas contra o absolutismo, o elitismo… Precisamos olhar ao nosso redor, conferir para reivindicar o que a nós pertence: “a vida de nossa terra!” Nosso chão está enfermo, está capengando em meio ao lixo das ruas que nós, os moradores, jogamos, deixando as lixeiras limpas. Esta ação poderia ser evitada se nossos governantes usassem os meios de comunicações para esclarecer, pedir, punir com multas aquele que suja, que fere e mancha o nosso sertão. Nosso chão está enfermo em meio aos chamados “lotes vagos”, vagos de construções, mas todos derramando mato e lixo. O que fizeram da lei que obriga aos proprietários destes depósitos de sujeiras e doenças erguerem muros para que nossos olhares não vejam a sujeira debaixo do tapete? Onde estão às pessoas que foram designadas para nos defender e nos deixa à mercê do vandalismo nas madrugadas do desrespeito, adoecendo e transformando o nosso chão num lugar onde TUDO PODE? Sigo andando… Vagueando… Tropeço nos altos e baixos das calçadas permeada de aclives e declives, sem placas indicativas de “PERIGO.” Sempre posso parar e olhar além da janela do meu pensamento e é justamente isto que faço; a paisagem fixa , paisagem de prédios e casas, sem ipês coloridos, sem uma rosinha sequer; apenas paredes de concreto, o chão de concreto, paredes de concreto, chão de concreto… Tudo desbotado, sem feições, sem beleza. A tarde se foi, a noite chega desacompanhada; fiquei imersa na escuridão da rua sem flores, calçadas desiguais, em meio ao lixo jogado na rua pelos próprios habitantes, pouca ou nenhuma árvore – a massa escura me impede a enxergar com nitidez. É claro, o escuro! A rua é apenas sombras… Há postes, há luzes, mas a escuridão persiste tornando propícia aos bandidos de plantão. Temerosa, retorno devagar; dentro de mim começa a habitar o medo das sombras da rua quase escura, e dos indisfarçáveis remendos do chão sem árvores, sem flores!…

Há neste chão um espaço em branco que pede para que escrevamos nele!

Alda Alves Barbosa

5 pensamentos sobre “O INDISFARÇÁVEL PESO DAS AUSÊNCIAS

  1. Recordo-me a primavera de 1969 quando saímos da escuridão com luzes florecentes que transformava o azul em roxo. quanta saudade. Sempre fomos de resistência. Unaí para os unaienses.
    Orlando – DF

    • Olá Leila,
      Obrigada, mas o seu blog também é lindo! As vezes penso seriamente em parar, porque literatura neste pais não é fácil não, vai ao extremo das dificuldades, principalmente porque o nosso povo não gosta muito de ler, e isto entristece qualquer pessoa que escreve. Mas cada um tem o seu jeito, não gosta de ler mais gosta de fazer outras atividades, e na verdade não temos uma cultura voltada para à cultura. Obrigada pela visita. Beijos

  2. Unaí em soneto

    Terra de coronéis assassinos covardes,
    chão de miseráveis ratos desprezíveis
    onde a soja surge entre as palmeiras
    e as pessoas insistem em ser felizes…

    Dos asfaltos e assaltos na cara dura,
    de comerciantes exploradores e vis,
    do infeliz paternalismo das calçadas
    e dos antiquados alérgicos à cultura.

    Berço de feito nenhum que se mereça
    festa em honra ou sacrifício de atitude
    que faça algum cidadão perder cabeça.

    Plaga de infinitas belezas inumeráveis,
    de azuis sem comparações mais rudes
    e um câncer perigoso dos mais graves.

    Auro Sergio in http://poemasdocerrado.blogspot.com

  3. Unaí em soneto
    Terra de coronéis assassinos covardes,
    chão de miseráveis ratos desprezíveis
    onde a soja surge entre as palmeiras
    e as pessoas insistem em ser felizes…

    Dos asfaltos e assaltos na cara dura,
    de comerciantes exploradores e vis,
    do infeliz paternalismo das calçadas
    e dos antiquados alérgicos à cultura.

    Berço de feito nenhum que se mereça
    festa em honra ou sacrifício de atitude
    que faça algum cidadão perder cabeça.

    Plaga de infinitas belezas inumeráveis,
    de azuis sem comparações mais rudes
    e um câncer perigoso dos mais graves.
    Auro Sergio

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