EU CONFESSO…

Escrevo impreterivelmente todos os dias. Sempre com uma fome enorme pelas palavras que me imagino arrumando a mesa para saboreá-las. Substituo o prato pela idéia, o garfo pelas letras, a colher pelas palavras e cubro a mesa com a gratidão do dom. Obedeço carinhosamente todas as regras da etiqueta porque neste momento vale à pena seguir padrões que os homens inventaram… Ah o copo, eu o coloco em frente ao prato e vou bebendo as palavras como se fosse um vinho francês. Bebo com a sofreguidão disfarçada daquele que ama o vinho, mas reprime o impulso, a educação o impede. Eu não, eu não faço por educação, faço por amor às letras, à poesia…E por este sentimento ser tão intenso em mim que preciso sentir este gosto intangível sem a vaguidão da pressa. Às vezes pego o guardanapo, limpo as palavras que não se fazem necessárias, ou refaço uma frase envolvendo-a com mais poesia. Eu e as palavras conversamos sobre o delicioso almoço, a aparência dos alimentos no prato… Beleza alimenta a alma! Este meu diálogo com as palavras me traz arrepios. Tudo pronto, texto impecável! Mais uma vez consegui com luta ou sem luta nenhuma. A forma não tira a beleza do “conseguido.” Confesso que a maioria das vezes que isto acontece me emociono e choro. O guardanapo serve para secar as lágrimas também, dualidade de serventia. Mas hoje, apesar de necessitar do alimento não quero arrumar a mesa, não quero almoçar. Estou sem “fomes.” Não quero ficar questionando o motivo de tamanha aridez de um alimento que me completa, que me faz “vida.” Não adianta não querer, cheguei à conclusão que é mesmo por ausência de assunto, de um tema para eu focar e discorrer com fome sobre ele… O que não consigo mesmo é traduzir minha indignação do cerceamento da liberdade de expressão. Assuntos têm muitos, há uma diversidade deles por aí… Mas não se pode falar das flores, das ausências delas… Não se pode falar… o que resulta na falta de apetite e excessos de frustrações.

Por tudo isto estou sem “fomes”… Domingo silenciosamente triste… Silêncio de morte da liberdade!

Alda Alves Barbosa

8 pensamentos sobre “EU CONFESSO…

  1. Mesmo sem fome, escrever é preciso e ninguem podes cercear a vontade de saciar a liberdade de expressar. Como dizia Alcione, Não dexe o samba morrer não deixe o samba acabar.
    Orlando-DF

    • Olá meu querido amigo, surpresa boa! Boa demais da conta! Então Orlando, as vezes perdemos o apetite… Ficamos sem “fomes” precisamos nos alimentar. Mas o alimento da minha alma é escrever, gosto de engordar as páginas dos livros, dos jornais, das revistas, do face, do site, . A comida existe mas não se pode alimentar-se dela… Minha alma faminta chora, esvazia, porque depende da escrita para se proteger. E eu Alda, isento minha alma desta responsabilidade, me encho de indignação. Ó homens, o que pensam que são? Deuses?
      Um grande abraço. Estou muito feliz em revê-lo… Ah, todos os dias matérias novas no site.

      • Olá, Ótimas e lindas matérias. Ums tem fome para escrever e muito talento para tal. Outros tem fome de ler, estou adorando o Travessias do Tempo, (auto retrato)
        Orlando

      • Estou suando muito, mas estou dando conta do recado,claro, com a ajuda da Dani. Viu o texto que ela escreveu esta semana? Mais uma que aprendi. Adorei esta sua fome de leitura. “Travessias do Tempo”(meu autoretrato sim) será lido e analisado por você. Na verdade, não meu autoretrato, mas meu olhar, meus sentimentos com relação ao que acontecia. Naquele tempo “as agruras de todos nós!”
        Um grande abraço

  2. Alda,
    Alguns homens pensam que são Deuses, outros têm certeza, principalmente os moram nas selvas de pedras.
    Orlando.

    • Olá Orlando,
      Não necessitam morar na selva de pedra não… Há deuses no cerrado, no cafundó, e só se sentem assim porque os súditos deram a eles esta certeza. E o homem que pensaque é deus é ridicularmente um “pobre diabo.
      Bjus

  3. Como poucos tenho fome e sede por alimentar minha alma. As palavras se transformam em banquete para alma e alimento para o coração. Com uma simples conotação e singelas palavras falaram de um modo muito profundo e me trouxe uma reflexão e mostrou muito “cheguei a mesma conclusão que como a ausência de um assunto, um tema” pode produzir um texto riquíssimo. Parabéns amiga

    • Sim, você tem toda razão. Comecei a escrever desvinculada de qualquer compromisso, escrevi o que estava sentindo, a falta do que escrever. E esta ausência de motivação, não por falta de de tema, mas verdadeiramente pela pouca democracia, fiz o texto. Parece que muitos gostaram. Sabe que até eu gostei? (risos)
      Um grande abraço

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