ONDE NÃO VIVO… SONHO

O dedo dormente que marcava a leitura interrompida, fez com que ela notasse a escuridão que se transformara a sala e todo o restante do apartamento. Mas continuou ali no sofá com os pés descalços pendentes no braço da cadeira. Seria de novo assim. A noite chegaria devagarzinho trazendo ruídos diferentes e, depois, o silêncio. Novamente a sensação terrível do já ter vivido. A noite chegaria novamente em sua vida, pisando levemente, e a encontraria pensando, imóvel, com os dedos dormentes marcando a página esquecida. Chegaria envolvendo de negro todos os contornos, inclusive o seu. Ela não conhecia aquele apartamento, ela já o decorara. Cada canto era íntimo seu. Tudo ali, desde a pintura, os móveis, cada enfeite fora escolhido cuidadosamente por ela, em quase duas décadas de seu casamento. Era tudo muito atraente, aconchegante como uma mulher madura e bonita. O apartamento era tão belo como ela. Com a cabeça firme e reta, fixou um ponto na parede, aquela cabeça que muitas vezes parecia está desvinculada do corpo, tão longo o pescoço. E aquele rosto reto, puro e tão anacrônico, cobertas de pele muita clara. O marido, escondido atrás do jornal, serviria apenas como ponto de referência para os filhos enquanto dispersavam pela sala. Era referência dela mesma, destacada apenas pela forma ausente dela mesma, por dentro e por fora, ela não se sentia existir. Moveu-se lentamente Num gesto quase imperceptível alisou o veludo da poltrona, era macio e morno. Seu olhar moveu-se para a parede. Gostava de ficar olhando aquele espaço meio louco idealizado por ela onde figuras humanas se despedaçavam ou se contorciam em formas animais ou pulavam primitivamente, multicoloridas sem direção, sem perspectiva. Lentamente seus dedos passaram do veludo para a pele. Também macia e morna. Subiram para a parte interna da coxa, penetraram facilmente a blusa comprida e fina que usava alisando o ventre, a cintura, parando nos seios ainda rijos. Como estaria ele agora? Pensaria nela, certamente. Como ela, esperava também.
– Adoro você. Adoro seu corpo.
– Meu corpo é seu.
– Todo ele?
– Todo, menos…
– Menos?
– Menos o prazer que tenho ao receber o seu.
– Ah, boba! Isso é meu também.
Acenderam-se todas as luzes num gesto espalmado de criança.

Alda Alves Barbosa

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