ENCHENTE DE SÃO JOSÉ

O sol castigava este chão. Há quase dois meses não chovia.A época do veranico de janeiro já estava no passado, e o sol intenso tremulava o chão. São Pedro não cooperava. Nadica de nada de chuva. São Pedro parece que gostava de ver este povo sofrido padecer de faltas… e de chuva. Quando chegava o entardecer os moradores sentavam nas portas das casas pra tomar à fresca e servir de alimento para as muriçocas. A conversa versava sobre as dificuldades da vida e a piora dela com o cerrado sem chuva. Aí sim, a vida ia tomar um rumo difícil…
– Olha lá o céu cumadre, cheinho de estrelas…
– Fala não cumadre, num olha pro céu não. Pra que ver o que não precisa?
– Desanima não, o dia de São José ta perto, e não tem dia deste santo sem chuva.
– Verdade. Desde que me entendo por gente, nunca ficou um ano sem chuva no dia dedicado a ele.
– Então pra que desesperar tanto?
– Ocê num viu o Rio Preto não?
– Vi sim, mas vou fingir que não vi não, bom lembrar isto não.
– Como num lembrar? Ele está ali no final da rua… Atravessar ele sem precisar de nado, sem precisar de braços, só dos pés!
– Exagerando cumadre, as pedras vão até a metade dele. Você não está falando das pedrinhas onde Ana, Otília… lavam roupas?
– Sim, e ocê acha pouco ir até à metade do Rio Preto sem precisar de nadar?
– Ora, cê tá nervosa, precisa não. Já jogamos água na cruz da igreja, agora vamos fazer uma promessa . Nossas filhas tão grávidas… Mais dois pra sofrer neste mundo de meu Deus!
– Deixa prá lá, vai passar falta não, Deus cuida. Depois diz que eu é que to nervosa.
– Pois é, vamos fazer a promessa. Se nossas filhas tiver homem vão chamar José Carpinteiro.
– Mas dois José Carpinteiro? Esquisito não, dois nomes igualzinho?
– É não, fica garantido à chuva do ano que vem. Se for apenas um homem será José Carpinteiro, a menina chamará Maria.
– Mas isto só se chover no dia dele, se não cair chuva forte nada feito. As crianças terão outros nomes.
– Certo cumadre, já estou mais esperançada. Êta vida, só de preocupação!
– Abão cumadre, ocê num acabou de dizer que está mais tranqüila?
– Importa não, nunca sei o que fazer o que falar.

O dia 19 de março chegou com o sol brilhando intensamente. As comadres olhavam para o céu e os raios solares as impediam de ver se havia alguma nuvenzinha escura no céu, um pequeno sinal de chuva mais tarde. O dia passou arrastado. O povo esperava a chuva que não vinha. O sol encostava nas pessoas, a esperança estava indo embora, uma tristeza só. Nesta noite ninguém sentou na porta de suas casas para prosear. Queriam ficar sozinhos… Todo cerrado é só… Lá pelas 23:00 uma claridade riscou o céu e logo depois o ecoar do trovão. A chuva chegou intempestuosamente… Um misto de medo e alegria surgiu em cada rosto. A chuva lavou o cerrado e alma dos sertanejos. O Rio Preto recebia as águas barrentas e cantava… São José não decepcionou. Após dois meses da “enchente de São José,” foram batizados na pequena José Carpinteiro Silva e José Carpinteiro Sousa… A chuva ou a enchente do dia 19 do próximo ano já estava garantida!…

Alda Alves Barbosa

8 pensamentos sobre “ENCHENTE DE SÃO JOSÉ

  1. Pois é Alda, São José Patrono da Igreja, carpinteiro, operário, pai zelozo e justo na profissão. Este não deixa seu povo na mão. A chuvinha tá aí, garantida. Esteja convidada a participar da festa em honra a São José, hoje, 19 de março, na Igreja Matriz ou no Convento e aproveite para oferecer a ele uma flor de lírio branco, como aquele que ele carrega junto com seu Filho.
    Abraços,

    • Olá Gilda, sim a chuvinha está garantida…São José não falha mesmo. Acho que já lhe disse que aquela imagem de São José que está no Santuário ficou umas quatro décadas na casa dos meus pais; era de tia Irene que depois doou para a igreja. Portanto, ele, São José, tem um lugar especial em cada cantinho do s nossos corações! Este ano minha saúde não me permitiu ir, vamos aguardar o ano que vem, Deus poderá me conceder esta graça.
      Abração e obrigada pela participação.

  2. Desde que me entendo por gente, neste dia de São José sempre teve chuva e enchente, dias depois vem a enchente das goiabas. São as aguas de março fechando o verão. Chuva depis só em setembro. Quero que voltes como volta a primavera.

    Orlando.

    • Olá Orlando,
      Estas enchentes era a certeza de todos nós. Nunca falhava, estava ali todos anos com a beleza da cheia do Rio Preto e a tristeza de ver nossos irmãos saindo, muitas vezes sem rumo, sem um lugar para ficar… Muitas vezes eu. vendo estas situações, acrescentava mais água ao rio, águas que brotavam dos meus olhos. E passa tudo… Como você, gostaria que tudo voltasse como volta a primavera!
      Com carinho,

  3. Alda, que benção este texto. Me encantei tbém com seu livro: ah! q saudades da nossa Unaí… obrigada pelo lindo presente! Gde abç!

    • Rita,
      Remexer no chão deste sertão é o que eu mais gosto de fazer… Lembrar das enchentes hoje que é apenas uma lembrança, nos dá saudades, mas naquela época era apavorante. Mas nossa terrinha, arranca de nós suspiros, não é mesmo?Gostou mesmo do livro? Bjus

  4. Boa noite minha linda ! Muito engraçado este texto, mas não passa de uma pura realidade. Sempre brinquei com certos nomes de pessoas quando os achava muito diferenciados da normalidade. Eu costumo dizer que um nome desse só pode ser promessa….rssrsrssr, e agora você veio confirmar de fato a a minha intuição. Sempre soube que quem abre as comportas do céu para nos banhar com fartura aqui na terra é São Pedro. Mas me parece que nesse cerrado de Deus, quem é responsável por isso é São José não é mesmo ? Fico só imaginando a briga que deve ter lá no céu se São Pedro for ciumento….Parabéns por mais um conto lindo que retrata a realidade da vida de todos nós. Aqui na Selva de Pedra, pedimos pra São Pedro nos banhar para acabar com a puluição por alguns dias e nos ajudar a respirar um ar melhor. Como você pode ver de uma forma ou de outra sempre temos que recorrer aos céus desse mundo de meu Deus. Um grande beijo

    • Olá meu lindo,
      É isto mesmo, Cada povo com o seu jeito de ser, com o seu jeito de falar, com suas crenças… Aqui neste lindo cerrado Temos a enchente de São José e quando ela não vem dizemos que São Pedro boicotou a chuva do dia de São José. Mas a chuva neste dia quase que cai impreterivelmente todos os anos. É apenas um conto de uma forma de falar de dezenas de anos atrás. Gosto de lembrar minhas raízes. Obrigada pelas suas gentis palavras. Beijos

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