ENCONTROS E DESENCONTROS

Texto De Artur da Távola

Cada encontro está carregado de perda. Ou perdas. O encontro entre duas pessoas que vão se envolvendo e culminam no amor e consequentemente são felizes, ao fim da felicidade, um deles, o que continua amando, abraça a dor, chora. Ou fica triste. Ou abaixa os olhos. Ou perde a vontade de passear pela vida. A vida para. É a perda que está escondida no deslumbramento de cada encontro. Penso que o encontro humano é tão raro que, mesmo quando ocorre já vem carregado de desencontros passados. E cada desencontro é perda porque é a irrealização do que teria sido a possibilidade de afeto. E é justamente a experiência destes desencontros que nos ensina a valorizar cada vez mais os raros encontros que a vida nos concede. A própria vida é uma espécie de ante-sala do encontro. Resta saber se estamos encontrando com o todo ou com o nada. Talvez ela, a vida, nada mais seja do que uma preparação do encontro com o desencontro, o que deixa claro que cada encontro está carregado de perdas: quando você está perto de alguém e consegue expressar; aquelas pessoas que deixam você num extremo cansaço de explicar as coisas; aquele que só emite, não deixa você colocar seu ponto de vista; Aquele que você admira tanto, que lhe impede falar; a pessoa que só pensa naquilo que vai falar e não no que você está dizendo para ela; quem já vem conversar com você com posições já definidas; alguém que o ama ou o detesta sem nunca ter sofrido ao seu lado. Tudo isto são desencontros, são perdas. E no ato de sentir-se feliz, associa-se a idéia do passageiro, do amanhã cheio de interrogações, do amanhã sem o que dá significado. E uma tristeza se instala: a tristeza feliz que é associada ao momento bom, como perda inevitável a cada encontro, com um sentimento de certeza que tudo passará. É a consciência do não-ter na hora de ter. Mas quem se alegra demais se distancia da felicidade. A alegria é Divina na medida em que é um dom, uma graça, uma pequena luz doada aos homens para enfrentar a vida. Alegria não é felicidade. Está mais perto da tristeza do que da alegria. Felicidade está perto da tristeza, porque a certeza da perda se instala a cada vez que estamos felizes. É esta certeza – a da perda – a que provoca aquela lágrima ou aquela angústia que se instala após os verdadeiros encontros. “Há sempre uma despedida em cada alegria. Há sempre um <<depois?>> após cada felicidade. Há sempre uma saudade na hora de cada encontro. Antecipada. Só salvaremos disso quem deixa de estar feliz para ser feliz, quem passa do estar para o ser.

2 pensamentos sobre “ENCONTROS E DESENCONTROS

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