OFÍCIO DOS POETAS

Não tenho como precisar o momento em que me interessei pela literatura. As lembranças me remetem a um passado distante, eu diria que quase inalcançável. Criança, eu me sentia embalada pelo cantar do mundo. A sonoridade da fauna, da flora, o ruído do vento passando,tocando as folhas das árvores esculturais. Meu olhar transcendia os limites das cercanias… beleza verde… beleza vermelha… poeira do cerradão.

Sonhei… Transformei meus sonhos numa realidade de sonhos. Neste instante fui abraçada pelas palavras e comecei a dançar no ritmo da poesia. Ritmo compassado, equilíbrio dos versos metaforizados buscando a rima para vestir a estrofe.

Não tive professores que me indicassem com trilhar o caminho da composição poética, e não poderia, mesmo que quisesse indicar estradas para serem percorridas o que incorreria numa suposta sabedoria na arte de poetizar. Se narrei aqui alguns fatos ocorridos, se rememorei uma situação nunca esquecida, não é com a intenção de me expor, é porque minha vida foi sempre uma sucessão de encontros poéticos direcionados para a dor ou para o amor.

Nestas andanças a poesia surgia… Eu a ignorava!… E no retorno, após décadas, busquei minha vida, busquei meu olhar e reuni as doses necessárias para nascer o poema. Aqui, neste sertão das gerais foram me dadas às contribuições da terra, da alma. Contribuições muitas vezes doídas, mas poéticas. E cada vez mais chego a conclusão que a poesia é uma ação passageira cumulando solenidades que entram em mim em doses não estipuladas de solidão, solidariedade, o sentimento e a compulsão de realizar, revelando a intimidade do poeta e a revelação secreta da natureza. Nela o poeta se ampara – o ser humano e a sombra de si mesmo, o ser humano e sua ação, o ser humano e sua poesia – numa integração que exercita em nós o real e a fantasia. E aprendemos com os outros seres humanos que não há solidão que não se pode conquistar. Todas as vertentes do caminhar convergem num único ponto: na demonstração do que somos. E é necessário que façamos a travessias da solidão e rudeza, o isolamento e o silenciar para chegarmos à magia do rodopio das incertezas ou cantarolar com a melancolia, mas neste dançar ou neste cantar, temos consciência de sermos pessoas e sabedores de que nosso destino é comum.

Alda Alves Barbosa

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