LÁ VEM BOIADA

– Ora dona Carlita, bons tempos aqueles. Tudo sossegado, tudo tão caladinho que a gente ouvia a mata cantar. Canto de tudo quanto é bicho! Até berro de vaca virava música, fazia bem aos ouvidos; a alma ficava quieta escutando cada piado, cada folha pisada que forrava o chão… Êta, saudade demais daqueles tempos. Cá prá nós, a senhora já pensou se a gente visse tudo de novo, não com a cabeça, mas o tempo voltando e nós olhando tudo de novo com que estes olhos que a terra um dia vai comer?
– Saudosa demais dona Francisca. O tempo faz é voar pra frente, tempo num voa pra trás não. Mas que seria bom,seria sim senhora. Fico cá pensando nas belezuras que já vimos de pertinho… Mas já vimos tanta coisa feia, mal feita, desonesta, tô certa?
– Isso é verdade, mas a vida é vivida assim mesmo: em altos, em baixos… Mas o que é bom e bonito é bem melhor de pensar de viver de novo só na cabeça, num é? A senhora se alembra das boiadas nadantes? Coisa bonita pros olhos, prá cabeça, pro coração!
– E não é dona Francisca? A gente vai envelhecendo… só lembra do que já passou, do que já foi… Ou não é nada disto e sim porque é beleza demais prá ficar calada dentro de nós?
– Acho que as duas coisas, os dois motivos. Você se alembra do sucuri enorme prá lá de três metros, que tiraram do Rio Preto? Foi preciso muitos homens para tirar ele do rio e trazê-lo pra cima, cá na boca da ponte. Bicho bonito! Sem exagerar dona Carlita, mas acredito que naquele dia pouca gente ficou dentro de casa. Quase todos desceram a rua grande prá ver a agonia do bicho. Mas triste mesmo foi ver ele morrer, na verdade, ocê lembra, mataram ele, eu não quis ver tirar o couro dele não, quem viu disse que era uma tristeza só!
– Não gosto de alembrar disso não, isso é coisa prá ser esquecida. Ocê se lembra do Rio Preto cheiinho de peixe? Êta douradada danada, cada peixe grande que só! E os surubins? Curimbatá, matrinchãs, mandi?
– Olha gosto mesmo é de alembrar as boiadas. Vinha de todo lado deste sertão imenso. As estradas boiadeiras cheiinhas de corredores que se contorciam pro lado direito, pro lado esquerdo e pousos espalhados pelos cantos dos cerradões pra matar a fome e a sede dos animais e dos machos sertanejos; figura importante do sertão na frente de cada boiada; figura importante do sertão com seus berrantes prateados, reluzentes, canto triste, canto de saudade ecoando entre as árvores retorcidas! Saudade mata dona Carlita? Se matar, morro hoje!
– Entre nós aqui, que ninguém nos ouça, tinha cada culatreiro que Deus me livre, só de olhar virava pecado. E como pequei vendo eles passar.
– Eu até que num sou de arreparar não, mas passei as vistas num deles… É! Ocê tem razão, era uma boniteza só!
– Num disse?
– Mas o que eu gostava mesmo era ver a boiada chegando do outro lado do rio, os machos sertanejos montados em seus cavalos arreados, ferrão nas mãos, na garupa a capoteira, na cabeça o chapéu de couro. Eu do lado de cá já sentia o cheiro dos bois, das novilhas mestiças, o cheiro dos sexos dos touros, no pescoço as barbelas balançando igualzinha rede quando venta, pra lá…
– Pois é, tudo passa, vira pensamento, vira saudade. Fico olhando os bois passando hoje dentro dos caminhões. Além de tirar a beleza dos nossos olhos, temos que ver um monte de bois amontoados, presos, suados, famintos, cansados, pisados, sujos, mijados. Dá dor no peito de tanta dó. Inda tem mais, tira da vista da gente a macheza sertaneja dos que levam a boiada pra num sei onde.
– É! mais meus olhos ainda alcançam a boiada caindo no Rio Preto, uma lindeza só! Parecia uma pintura daquelas que a gente comprava dos mascates. Meu pensamento ainda vê o povo correndo na rua grande levantando a poeira vermelha do chão, pra ver a boiada nadar. Ora, parecia um circo, gente aplaudindo, gritando, conversando alto, apontando quando a correnteza tirava uma rês desavisada do meio das outras. Os machos corajosos do sertão
entravam em ação, e voltava à desgarrada para junto do rebanho. Tenho tudo registrado na minha cabeça, mas quando eu for desta para melhor não deixarei retrato deste rio cheio de águas e de bois.
– É, maravilha danada! A gente só via as cabeças do gado. Até as águas do Rio Preto sumia tão grande era a boiada tomando o espaço do rio.
– Pois e´! Quadros do passado. Ocê ainda sente o cheiro dos pelos molhados de quando a boiada saía das águas? Cheiro gostoso por demais; tinha o cheiro de cerrado, da vida sertaneja… Num era assim o cheiro que ficava no ar?
– Era sim, acho. Não entendo essa doideira de cheiro sertaneja não. Vida sertaneja tem cheiro?
– Ora, ocê tem cada uma! Mas fico aqui a matutar… Quantas léguas até os matadouros, as charqueadas! Que dó Senhor, a boiada sendo levada para a morte, se é que não morria no caminho, tal a lonjura. Dói no coração, mas precisamos comer para viver. E carne de boi é carne gostosa por demais. Falando nisso, o Zé ta chegando da roça, os meninos da escola e a janta tem que estar pronta. Ainda tenho que cozinhar o “lagarto”. Meu sogro matou o boi ontem. Da até água na boca! Tão gostosa fica uma carne dessas bem temperada, bem feita…
Até mais. Não vai começar a janta não? Ta na hora! Chega de recordar.

Do livro “Travessias do Tempo” – Alda Alves Babosa

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