PEQUENO MEMORIAL DE JOÃO BREGUEDÊ

Gostaria de “estar poeta” para transcender a fria palavra “fim” pelo: “você está vivendo num lugar, por enquanto, a mim inacessível, iluminado por vaga-lumes, derramando flores e perfumes verdejantes. Agora você conhece a eternidade… Deixou a condição de hóspede para alçar vôo à procura de um lugar onde a existência é infinita.”
Ao saber de sua partida Breguedê,tive um sentimento de perda. E vi um menino chegando à casa de meu avô materno, acompanhado por um senhor que o deixou ali sem sequer um abraço de despedida. Menino grande, de olhar desconfiado, tímido e paradoxalmente arrogante, cobria seu corpo com vestes trágicas que denunciavam a condição de minimidade física e afetiva.
Mesmo descendo aos porões da minha alma não consegui “ter certezas” sobre você. As perguntas que fiz a mim mesma não pude respondê-las. Dentro de mim habitava o vazio de informações sobre sua pessoa. Então percebi a indiferença do “Ser para com o Ser.” Fisicamente você labutava: labuta braçal, pesada… No seu olhar o brilho constante da raiva contida em “respeito”àqueles que lhe davam comida e trabalho.
Os meus olhos perpassavam por você, mas eu nunca o vi. Nunca vi o seu corpo ocupando espaço no espaço; nunca o vi chorar; nunca o vi sorrir. Só percebia os seus gestos raivosos substituindo a impossibilidade da fala.
Ah, se você falasse “João Breguedê,” exigiria ser chamado pelo seu verdadeiro nome e, teria um sobrenome. Brigaria pela sua condição humana, reivindicaria o esvaziamento do preconceito social pelas diferenças.
Um dia você se foi da casa do meu avô. E os que nunca o viram, perceberam imediatamente a sua força. Força que não residia só nos braços, no punho sempre cerrado para o mundo, mas na força de estar presente em si mesmo, na força de existir.
Detestar bicicletas era uma das particularidades de “Breguedê.” Bicicleta é chão, é terra. Avião é grande, bonito, voa alto, chega depressa, vai longe, longe demais… Acho que por isso ele era paralisava o olhar no alto quando via a nave passar nos céus.
O respeito por si mesmo o libertou do servilismo. Atitude que o deixava grande e ameaçador. Você se defendia com sua ética inventada. Invenção de defesa para que o outro não o invadisse.
O tempo passou… “Breguedê” sonhava que tinha asas e alçava vôos em direção à sua existência. Existência mágica, edificada pela luta sem voz; luta contra a rejeição; contra a cegueira social.
E tristemente confesso que não o “enxerguei”, e por isso não sei o seu verdadeiro nome.
 
Alda Alves Barbosa – Publicado no “Jornal Noroeste de Minas”

4 pensamentos sobre “PEQUENO MEMORIAL DE JOÃO BREGUEDÊ

    • Eu o vi chegando, mas não o vi partir… Depois que saiu da casa de vovô Juca, ele tomou raiva de todos nós. Acredito que ele fez uma associação dos filhos, netos, bisnetos, com vovô, tio Homero… A vida passa depressa, as lembranças ficam e, muitas vezes, quando refletimos sobre elas, ficamos com sentimentos de culpa! É assim que eu me sinto com relação a ele.
      Beijos Lu… Obrigada pela linda visita!

  1. Homenagem muito bonita Alda. Pena que não tenha postado foto dele. Vai um segredo aí. Meus filhos morriam de medo dele, não ousavam andar de bicicleta se o vissem, mesmo de longe.

  2. Eu escrevi esse memorial logo pós o falecimento dele. E me lembrei que não havia postado no site. Refiz, retirei os excessos e confesso que ficou melhor. A fotografia eu não a coloquei porque não encontrei nenhuma dele. Imagino que seus tivessem medo dele sim. Com o passar do tempo, ele foi ficando mais violento… Foi como escrevi no texto que eu o conheci… E é assim que me sinto quando me lembro dele: um sentimento de culpa muito grande por ter aprofundado na vida dele, por não ter estendido meu olhar para enxergá-lo!!!
    Obrigada Gilda pela sua linda visita! Bjs

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