Travessuras e Travessias

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      Na minha infância o natal parecia nunca chegar! Férias? Lonjura por demais! Essas eram mais longas – de dezembro ao mês de março – mas como demorava a chegar! Ficava na prolongada espera de viajar para Formosa ” dos Couros”.

       Como tudo na vida, as demoras acabam cedendo lugar ao momento. Abracei os ” meus ” e dei um adeus prolongado. E lá fui eu de jardineira para os ventos de Goiás. Férias longas. Muito tempo sem pisar nesse sertão tão meu. Sentimento profundo, já com saudades por demais.

       As férias findaram. Era chegada a hora de voltar para casa ( na data marcada pelos meus pais ) e recomeçar… De novo na jardineira e horas a fio engolindo poeira vermelha. Um mar de águas doce nos aguardava perto do ” Amaral “.  Unaí parecia imersa nas águas do Rio Preto. Meu rio era bipolar; saiu da mansidão para explosão…

      Ilhados e apavorados… O motorista foi verificar a profundidade das águas… Hoje penso que ele foi ver se nossa pequena Unaí ainda existia. Retornou. E lá fomos nós de jardineira até aonde as águas do rio permitiam. Ali paramos. Duas opções: ponte de “cabo de aço” ou canoa! Um palmo e meio para a água chegar na pequena e frágil ponte. Com um agravante: as águas do Rio Preto lavavam o cerrado e traziam para o centro troncos de árvores nadando no sentido vertical. O perigo era iminente. Essa travessia podia levar para o fundo do rio o corpo das pequenas almas que imbuídas de coragem procuravam salvação. Estática fiquei entre o ficar em lugar nenhum, ser tragada pela violência das águas ou atravessar a ponte balançante. Restava a canoa. Optei por ela. Sob a proteção de Deus e Joaquim “do Barco ” que assobiava a música carnavalesca ” … se a canoa não virar, olê olê olá, eu chego lá…”

       Mas não virou e chegamos lá… Atravessamos o doce mar bravio e abracei meus pais, que desesperados me aguardavam na outra margem.

       Eu e o meu rio sempre fomos um!

Alda Alves Barbosa

2 pensamentos sobre “Travessuras e Travessias

  1. Olá Alda,
    Tu me provocas, os mais deliciosos arrepios de recordação que a alma pode perceber. Eu também reivindico um pouquinho dessa época tão maravilhosa, Só não tenho a capacidade poética tão bela para retratá-la, mas temos amiga poeta pra que? Tenho uma história interessantíssima do Joaquim do barco para contar (fomos vizinhos).
    Grande abraço.
    Orlando – DF

    • Quando a vida vai declinando nos horizontes as recordações têm a nossa idade. Como ignorar o tempo vivido? Precisamos, de vez em quando, dar um passeio pelo passado, (re)viver o já vivido. Somos o que lutamos para ser e, essa luta dura uma vida, vida de instantes acumulados.
      Essa época é sua, é minha, é de quem viveu esses momentos. Como excluí-lo de uma história tão bonita chamada infância, juventude? Essa “vida” é nossa, esse site é nosso, Joaquim do barco permeia nossas lembranças do Rio Preto sem ponte, daí o barco.Barco que ele manipulava bem; canoa que ele remava nos transportando para a outra margem, mas nossos pensamentos… quem remava éramos nós…
      Gostaria que você me relatasse através de e-mail essa história. Basta o caso, os pormenores eu floreio rsrsrs.
      Obrigada pelo estímulo, pelo carinho…
      Abraços
      Alda

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