Olhar de encanto

cronicas-da-dani

 

Entrou na casa de belíssimas janelas coloridas com flores, e quando abriu a porta ficou extasiada. Epifania… A quanto tempo não tinha uma, na realidade nunca teve uma antes, mas gostava de acreditar que sim, que foram vários os seus momentos epifânicos! Reinventar, recriar, imaginar eram suas palavras preferidas. Cecília tinha uma intimidade concreta com noites,viagens, luares, cores, objetos, sons. Naquela casa, estava tudo aquilo que um dia sonhara para sua vida em completa harmonia. Até a disposição das formas, a incidência da luz, as cores, lhe eram familiares e aconchegantes. Era engraçada a sua fixação por panos. Gostava de muitos forros, tapetes, cortinas. Era nova, mas tinha um amor por casa de vó – assim chamava todas as casas com muitos objetos artesanais e aqueles tesouros antigos, que hoje não tem nenhuma serventia além de se tornar algo muito bonito. Resquícios de memória de infância como aquele ferro de brasa pintado de azul que agora enfeitava o canto da porta, ou mesmo a máquina de costura antiga que tornou uma mesinha maravilhosa enfeitavam suas lembranças. A sala ampla e clara, guardava um cheiro de carinho. Cortinas de crochê arrastavam até o chão, onde um enorme tapete convidava a conversas em meio a almofadas pintadas a mão. Sentada naquela mesinha redonda de madeira na cozinha, era possível ver da porta aberta, um quintal com árvores frondosas de sombras convidativas. O quarto coloria seu sorriso com uma colcha de retalhos e um móvel de madeira rusticamente reformado, que agora sustentava um vaso de planta. A sua máxima de reutilizar, de tornar bonito o simples, estava ali em cada cantinho da casa. Cecília e seus grandes olhos pretos hipnotizados, não parava de se reconhecer, de se emocionar. Como coisas assim podem transbordar tamanhas sensações? Se indagava o tempo todo.Uma voz calmamente a respondia: não são as coisas, não são os objetos Cecília, é você! Você que tem a sensibilidade de uma flor, e uma sabedoria de perceber, que não estamos no mundo por estar. Olha bem Cecília, você se identifica, ama, escolhe, apodera de momentos que são seus. Ninguem poderia ver o mundo com seus olhos, seus belos olhos pretos que agora fitavam fixamente aquela cadeira de balanço.

Danielle Martins

2 pensamentos sobre “Olhar de encanto

  1. Dani, amei a epifania da casa da vó… O colorido da vida de um enfeitando a vida de outros… Não importa se essa festa acontece apenas no pensamento… Primeiro o sonho, depois a realização dele!
    Parabéns!

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