Crônica – Depois do tempo

Dia desses resolvi literalmente arrumar minhas gavetas. Fui selecionando o que era descartável, não sem antes fazer uma avaliação minuciosa. Última gaveta. Como não sou muito prática admito que o cansaço foi grande. Não sabia que eu guardava o que poderia ir direto para o lixo. Conheço pouco de mim, constatei.

Peguei uma revista que eu encontrara em uma das gavetas. Não era tão antiga, também não era atual. Alguns anos de impressão. Mecanicamente fui virando as páginas e me deparei com um texto de Lya Luft onde ela dava dignidade ao envelhecimento. Palavras sábias, com uma sutil poesia; um pensamento explanado com critério, sem abstrações. Melhor dizendo, palavras para pensar, repensar…

Uma frase me chamou atenção: “A chegada da velhice não precisa enferrujar a alma.” Palavras certeiras, sem utopias. Afinal corpo e alma enferrujados têm poucas chances nesse mundo de pessoas “antenadas.” Tive uma sensação boa ao refletir sobre essa via de pensamento dessa bem sucedida escritora. Me vi (sobre)vivendo. Com a “terceira idade” tão próxima, meu cérebro trilhando caminhos, fazendo escolhas… O tempo passou sim. Muitos corações se foram e eu ainda estou aqui fincada nesse chão braseante.

Tenho consciência que estou ficando chata, impaciente… Coisas determinantes da idade que claro, podem ser amenizadas. Coisas da idade? Ou medo da idade? Sei não! O que sei é que me levantei do chão abruptamente e fixei meu olhar no espelho. Toquei meu rosto sem nenhuma delicadeza e fui com as pontas dos dedos esticando minhas faces, minhas pálpebras, minha testa cheia de vincos… Olhei minhas mãos: uma mancha senil aqui, outra acolá… fios de águas azuis coloriam-nas. Minha pele não possuía mais a maciez dos ontens!…

Decidida fui recapitulando minha vida. Hoje acredito que eu estava à procura de mim e, claro, não me encontrei. Como encontrar alguém que já se foi há décadas?

Reconheço que em cada fase da vida há uma busca de adaptações e acabamos encontrando algo para fazer e viver. Mas reconheço também que não é fácil não se reconhecer no espelho ou em lugar nenhum.

Decidido. Uma plástica no final do ano. Cara nova. Dor amenizada. Até quando? Até conseguir me traduzir no agora.

Alda Alves Barbosa

2 pensamentos sobre “Crônica – Depois do tempo

  1. Alda, Sua medida não pode ser o espelho, pois ele não reflete a intensidade de sua alma. Alda acabo de chegar de São Paulo onde presenciei a loucura do consimismo desenfreado, que ganância e que nescessidade aquele povo tem em consumir. O doutor Drauzio Varela tem uma frase muito boa e se enquadra muito bem ao momento: ” Não adianta ter peitões de silicone e ereção de viagra, se não sabe para que serve”. Ou seja o que manda é a mente, e a sua é de criança.
    Grande abraço.
    Orlando-DF

    • Sim, sei que sim… Morrerei com a mente jovem. Na verdade não consigo envelhecê-la. Mas o entardecer da vida nos tira muito. Não só fisicamente, mas intelectualmente também. Ser jovem e viver eternamente é a vontade de uma grande maioria. E claro, eu estou entre esta maioria. Fica apenas na vontade, no sonho… Um dia o fio tênue que nos liga à vida aqui na terra se desfaz e, se Deus permitir, o céu é o limite!
      Um grande abraço, Orlando

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