EVAS

Sempre que meu olhar pousa sobre uma mulher, inevitavelmente entoo uma triste canção que não chora, mas diz: “Mais uma Eva!”Herança que nós, mulheres carregamos desde que Deus criou suas criaturas. … e  Eva seduziu Adão oferecendo-lhe o fruto proibido. Um pecado que determinou a difícil caminhada das filhas de Deus desde a criação do mundo até os dias de hoje. Evas, labirinto de pedras rastreando o limbo; Evas apedrejadas; Evas bruxas queimando no crepitar das fogueiras; Evas que sangram; Evas, moedas de troca; Evas para divertir os homens…

Quanto paradoxo! Quanto desrespeito para com as Evas que  sempre guardaram suas sementes nos ovários para povoarem  o mundo; que parem homens e mulheres, que envergam sua própria alma no convívio da dor e da alegria, do encontro e da ausência; da solidão e da espera para que a luz da vida aconteça.

Evas subestimadas que surpreenderam os homens fazendo a  revolução do século XX, penetrando tão profundamente na sociedade que não é mais possível dizer a elas o que se deve ou não fazer. Nós, as Evas, melhor dizendo, as mulheres, prosseguimos na direção da nossa própria liberdade que deveria ser natural, mas que foi conquistada arduamente, sem deixar a nossa essência, o feminino, lançando mão da loba que existe dentro de nós.

Sim, somos lobas… Não admitimos vicejar em atmosferas impostas, nem nos moldamos a velhos paradigmas obsoletos.

Não, não é mais possível retroceder, mas é preciso avançar. Onde? A cada dois minutos, cinco mulheres são espancadas no Brasil. Os estupros e os abusos são crimes que, em geral, ocorrem dentro das próprias casas. Ganhamos salários menores que os dos homens para ocuparmos os mesmos cargos. Ouvimos piadas machistas o tempo todo. Sofremos cotidianamente com a noção de que somos propriedade do homem e, portanto, podemos ser usadas a seu bel-prazer. Ainda somos vendidas junto com a cerveja e tudo mais que o mercado quiser.

Por que continuamos em uma realidade tão inóspita? A resposta é óbvia e simples: porque a sociedade segue sendo machista, apesar de todos nossos avanços. Uma cultura tão antiga, que perdura há milhares de anos, não muda de uma hora para outra ou de um século para o outro. A humanidade ainda não experimentou viver em liberdade e igualdade, sem discriminações. E tão pouco chegará lá se não nos mobilizarmos, não atuarmos, não transgredirmos.

Resvalo entre palavras, quase toco o sonho, na quase solitária intenção de que um dia não precisaremos mais comemorar o dia da mulher, porque ser mulher é tão natural! Não oscilamos entre o ser e o não-ser. Nós somos… Nós existimos com nossos defeitos, com nossas qualidades, com nossa incompletude, assim como todos os seres humanos!

Alda Alves Barbosa

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