Fogo no rabo

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A beleza dourada se recolhia devagar. No chão da pequena Unaí alguns fios de ouro pintavam de amarelo a poeira vermelha. Um quadro belo e triste. Beleza da natureza aliada à morte do Filho de Deus. Nos anos de 1950 – Anos dourados – 1950 anos depois de Cristo, nossa cidade, ainda em tenra idade, já relembrava o sofrimento e morte de Jesus.

Dentro da Igreja Nossa Senhora da Conceição, todos os 12 passos foram visitados – a Via-Sacra: da condenação por Pilatos ao sepulcro. No adro da igreja, Lulu de Berto – aqui alguém era sempre de alguém – Vestida de preto, véu negro na cabeça (cor do luto), relembrava Verônica cantando com sua voz bela e emocionada uma música sacra. Enquanto seu canto ecoava pelo cerradão ela ia desenrolando suavemente com suas mãos uma das inúmeras réplicas esparramadas pelo nosso planeta do rosto de Jesus que ficara no tecido quando ela, a Verônica enxugara o rosto do Salvador. A emoção era intensa; poucos conseguiam não derramar lágrimas. Rememorar é acontecer novamente. Jesus sofreu e morreu outra vez. Haveria novo sepultamento. Estávamos sós. A presença Dele era espiritual. E essa ausência física do Salvador deixava todos nós no desamparo. A fé, só ela poderia nos sustentar. ‘ O cristão precisa-se se saber pecador, impotente, vulnerável. ’ Sabedor disto a fé aumenta.

Com as velas já acesas, a população ali reunida em duas filas indianas começara a procissão do Senhor Morto. Na frente um padre e Cândido (de vovó); este carregava uma cruz não tão pesada como a de Jesus. Não era momento de cânticos, nem orações… Todos estavam enlutados. Silenciosamente o féretro foi prosseguindo. Ouvíamos apenas o som dos nossos passos abafados pela poeira.

Um pouco distante, perto da Prefeitura Municipal, hoje Câmara dos Vereadores, um homem amarrara no rabo do seu cavalo – não tenho certeza se o cavalo pertencia a ele – uma lata contendo gasolina. Esperava pela procissão. E quando ela foi chegando… não pensou: ateou fogo na lata. O cavalo, apavorado com o fogo no rabo saiu em disparada em direção ao povo. Os fiéis, idosos, adultos e crianças corriam sem rumo procurando lugar para se esconder.

De longe ouvíamos as gargalhadas. O padre exasperado sacudia a batina e de sua boca saia em profusão palavras amaldiçoadas. Excomungava o ateu.
As gargalhadas continuavam!

Alda Alves Barbosa

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