Domingo…

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Amanhecendo… o domingo vai preguiçosamente despertando! Um ruído aqui, outro ali… tudo insuportavelmente devagar…O domingo quer continuar domingo, quer dormir – Não deseja acordar porque a vida está dormindo… A vida de todos dorme! Mas ele precisa despertar. O planeta está girando… o pião gigante gira, gira, gira, gira e ele acompanha essa pressa sem pressa. Ele pertence ao mundo dos rodopios rápidos, das ânsias dos vômitos, dos cansaços, dos vazios…Com o voo do tempo os domingos passam … as pessoas acordam…e dormem… e acordam…para novamente dormirem.

Sem o sono, sem a preguiça, o domingo não é!

Confissões

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 Quando aqui cheguei, Unaí ainda tateava na escuridão de seu nascimento. Tateávamos. Eu, expulsa do útero materno, ela liberta do julgo de Paracatu lutava para manter-se viva na pós-escravidão. E, esta luta à procura de caminhos e de claridade sempre foi o laço que nos uniu.

Costumo fechar os olhos para abrir minha memória e ver minha cidade tal qual era: o casario bonito de tia Mariana e dindinho Filadelfo, a beleza triste da residência dos Rangel, a igrejinha de Nossa Senhora da Conceição, o Bar Velho, o Bar Novo… poucas ruas, largas… Poeira vermelha para dar e vender, e quando as chuvas abundantes molhavam o cerrado, a poeira se transformava em lamaçal. Andar pelas ruas exigia equilíbrio. Pobres moças vaidosas! Cambaleavam em cima dos seus sapatos de saltos altos… Acrobacias necessárias.

Unaí era um verdor pela quantidade de árvores do cerrado ainda intacto e pelos quintais coloridos pelos pés de mangas, carambolas, jabuticabas, jatobás, goiabas, cajus, tamarindos, bananeiras, laranjeiras… flor da laranjeira, virgem flor!… Tudo isso desapareceu com os loteamentos para edificar novas moradias. Tudo acabou! Todos se foram!

Meu encanto maior era o tapete de folhas forrando o chão do cerrado, cheio de frutos, de flores tímidas, de pássaros, e de cobras. Pássaros destemidos. Faziam seus ninhos ao alcance de nossas mãos. Desconheciam a crueldade da meninice!

Menti. Meu encanto maior era o Rio Preto! Águas rasas, profundas… Águas escuras para clarear as roupas… um dedo de prosa com Ana e Otília… A vida, a morte… Todas se foram!

Naquele tempo a vida não variava. Tudo era igual, repetível! As janelas não existiam!

       Alda Alves Barbosa

Mural:

Desejos

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Fragmentar o tempo em meses para culminar em anos seria um retorno à esperança? Fazer planos, recomeçar, mudar os rumos ou simplesmente anular mentalmente o que não foi bom?

Uma pausa imaginária para reformular os sonhos! Sim, imaginária, mas necessária. Viver sem “pausas” cansa, entedia… É bom esperar o que está por vir.

Para você, amigo, parente amigo, desejo que faça uma pausa para olhar as estrelas, para ver a lua inteira, pela metade… desejo que faça uma pausa para sentir na pele o calor, o frio, os pequenos pingos d’água que caem dos céus.

Desejo que arrume um tempinho para debruçar seu olhar naquele que reside ao seu lado, naqueles que residem nas ruas tropeçando, caindo atropelados pelo caos interior.

Desejo que seu olhar pouse sobre a natureza, que ouça o canto das águas e o farfalhas das folhas das árvores, o canto dos pássaros…

Desejo que desenvolva o espírito de cidadania e cuide de sua cidade, lembrando sempre que somos nós os administradores de nossa terra ou da terra que escolhemos para morar.

“Que você viva, viva muito, uma vida bem vivida” e que deseje apenas o que não pode prescindir “ por exemplo, DEUS!
Feliz 2016
Com carinho e respeito
Alda

Sepultamento das Amélias e Cinderelas – Dia Internacional da Mulher

Bailarina

E as Amélias e Cinderelas estão morrendo! Mortes e sepultamentos necessários. A vida real nos chama… A realidade nos mostra seu rosto despertando em nós uma necessidade de cuidarmos de nós mesmas. Cuidar de nós mesmas significa fazer nossas escolhas, trilhar caminhos escolhidos por nós, chegando onde desejamos chegar.

Estas atitudes nos tira da condição de exiladas, de incapazes… Sim, incapazes! Um sentimento destrutivo, uma tempestade sombria de transferência de responsabilidades nossas para o outro. E nos perdemos… O outro nos tem. Ele passa a abrigar nossos sonhos, nosso eu!… E não nos devolve mais a nós mesmas. Fomos sepultadas no outro!

Amélias e cinderelas ainda é a grande maioria. As Amélias cuidam do outro(s); as Cinderelas esperam alguém que cuide delas. Mas aos poucos elas estão morrendo… Afinal, destruir séculos de servidão não se faz de um dia para o outro.

Sigamos em frente…” Pintora pegue o pincel… pinte. Bailarina, vista sua malha, amarre fitas no cabelo, na cintura ou nos tornozelos e … dance!” Poetas, escritoras, sejam férteis… escreva. Mãe, respire profundamente e vá à luta… ensine seu filho a arte de viver. Esposa, seja mulher, mas seja independente, “casamento não é batido a prego” – Ditado popular.

Dancemos todas! Marias, Joanas, não importa o nome… Exerçamos nossa arte, seja ela qual for… “O que está em movimento não se congela!”

Sigamos em frente!

Alda Alves Barbosa

A menina da janela

O sentimento de desamparo minimizado na figura materna e paterna. Os monstros da infância e o não entendimento do porquês da existência e da inexistência.
Na criança que fui e na mulher que hoje sou, nasceu na infância. Nessa fase fui me percebendo e percebendo o mundo. Me perceber enquanto ser humano, sempre foi um processo difícil. Não entendia e continuo não entendendo a vida, a morte… Era e continua sendo angustiante essa terrível ausência de respostas. Acho que sou uma pessoa torturada pelos porquês.

Da janela da minha infância fui me preparando para ser o que sou. Se vi e vivi tantas situações lúdicas, também vi e vivi as desgraças oriundas do estado ditatorial do coronelismo. Trevas que atingiram a mesa da minha família e que inundaram também a mesa de muitos.

Naquele tempo o sertão era grande, mas seu povo era pequeno. Ali, estava a casa que eu nasci e que continua existindo dentro da minha memória. Vivo e não vivo mais aquela criança que perdia o medo porque sabia-se que no quarto ao lado haviam dois anjos para afugentar o lobo mau, o lobisomem, as almas penadas, a desgraça (mulher alta com uma enorme trouxa na cabeça) a mula-sem-cabeça…

Relâmpagos riscavam o céu; trovões (papai do céu ralhando); um rio de vento e as primeiras gotas de chuva caiam. Começava o inverno das águas. Um mês de chuva ininterrupta. o Rio Preto tecia fúrias; ruídos invisíveis; monstros engolindo cerrado… Medo? Sim, mas sabia-me protegida. No assoalho retumbava os passos da minha segurança esvaziando as bacias que amparavam as goteiras.

E eu ouvia – “Sai da janela, menina. O luar só voltará quando a chuvarada passar.” Invernou mesmo! Ralhava minha mãe!

Alda Alves Barbosa

Haja deuses

 

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É triste “ó terra das palmeiras, onde cantava o sabiá,” olhar nosso chão e ver seus sonhos invadidos pelos pesadelos “cibernéticos” dos zumbis.

É triste imaginar seus amanhãs sem vislumbrar outros sóis…tudo igual aos ontens das malas, das cuecas, das meias, dos sapatos!

Nada de novo no horizonte! A mesmice satânica de quem desrespeita conscientemente muitos dos 10 mandamentos escritos por Moisés.

É triste ó Pátria Amada, ver semeada a divisão no mesmo reino – irmãos contra irmãos – culpados inocentes.

A miséria humana desencadeando a separação nas chamadas “classes sociais”, agora inconciliáveis.

“Em terra de cego quem tem um olho é rei” – e o rei reinará sempre entre os que andam tateando pela vida sem nunca percorrer as estradas.

E o diabo foi delineado ferozmente. Os caldeirões continuam a fervilhar…fronteiras que não limitam o vício e a morte. A vida…tudo uma questão de sorte.

“Deus e o diabo na terra do sol”.

Haja deuses!

Alda Alves Barbosa.

Sem lugar no mundo

10245386_744100988967860_7129305206885715938_n Dani xxAndo assim, assim: sem lugar no mundo. Sem casa, sem teto, sem lar. Sem um lugar onde descalçar os sapatos e despir as roupas e a alma. Ando assim, sem cama minha pra dormir ou espaço meu pra me jogar. Minha mala, minhas coisas já não são minhas, são de ninguém. Hora aqui, hora lá e o coração ainda mais distante. Ando comigo. Meu eu me acompanha sem entender muita coisa. Converso com uma pessoa morta, me reconheço em textos dolorosamente ácidos, vejo o outono colorir tardes bucólicas sem o encantamento de outros anos. Calejada, sem abraços, sem palavras. Sinto frio até em dias quentes. Vagueando por uma estrada escolhida sem muito senso de direção e mil dedos ao redor apontando caminhos que acham que eu deveria escolher; ou mil dedos apontando pro meu ser ou para aquilo que eu deveria ser. Não me importo mais. Piso com força contrariando a todos com o prazer de fazer sozinha minhas escolhas. A partir de hoje mais silenciosa. De todos os ouvidos que acolhem aflitos sentimentos meus, os seus eram os que realmente me entendiam por inteiro. Sem você aqui, hoje percebo que já não faz sentido derramar em outras pessoas. É uma pena… Todo mundo merece um cúmplice! Ando assim, assim: sozinha, sem paz e em silêncio!

 

Alda Alves Barbosa