Horas Mortas

noturno

Alguma coisa dentro de mim se quebrou. Nenhum brilho na noite… Meus gritos esgotaram, sobraram os ecos ensurdecedores explodindo em meu ser. Roubaram-me os sonhos. Dentro de mim há apenas um vácuo, um deserto, um rio sem movimento. Canções mortas para uma alma morta.
Tirei os olhos dos amanhãs!

Alda Alves Barbosa

Sou tantas…

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Não sei quantas pessoas moram em mim. Cada momento sou uma. Sinto-me estranha a cada vez que outra toma o lugar. Sempre me perco, nunca me acho. Quando penso que sou não existo mais… E confundo-me entre tantos eus. Torno-me elas, e não eu.

Não sei onde estou. Devo estar em alguma estrada procurando caminhos que me levam até a mim. Caminhos íngremes, áridos, paisagem inóspita… Tantas pedras, quantas escuridão!

Sou minha própria paisagem. Fico na margem das estradas assistindo minha passagem transbordando interrogações

Galeria

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Longe o luar… Longe os sonhos…

2132531 Olga Czerwińska
Longe o luar… Longe o rio… Longe os sonhos… Perto as ausências e uma mágoa de não sei o quê; talvez mágoa das desesperanças, do vazio preenchido por escombros vividos nos ontens longínquos ou nos sofridos ontens tão próximos!

Uma ária sonolenta ecoa do espigão. O passado mora ali. Os passados moram ali. Em sonhos estou ali a lavar lençóis de mágoas nas pedras dos corações.

Fios d’água atravessam as distâncias, chegam aos meus olhos e deságuam como rios vincando meu rosto já pálido como a lua. E sonho. Sonho de vida iludida, morada de escombros.

Preciso da ilusão para viver… morrendo!

Alda Alves Barbosa

Réquiem

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O sino tange distante, eu entrelaço minhas mãos às suas e nossos olhares encontram os céus.

Hoje estamos juntos… Nada sabemos do amanhã, do depois de amanhã… Desejamos apenas estes instantes, o próximo que vier…

Nossas mãos irromperam as nuvens… Embaixo um amontoado de pessoas acompanham lentamente um triste réquiem.

E nós dois – separados pela eternidade!

Alda Alves Barbosa

Porque fui… porque retornei

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A mala estava pesada, não por excesso de bagagem… Consegui arrastá-la até a porta. Abri, e sem nenhum adeus, parti.

Parti porque aqui a dor doía todos os dias… Parti porque eu desconhecia instantes de felicidade a que todos os humanos têm direito… Parti porque tinha de ir; minha terra tinha gosto de coronelismo, gosto de servidão… Parti porque todos os dias eram paridos escravos e capachos.

E eu não concordava, nunca concordei… Eu sofria por algo que não entendia, mas que doía – Sertão bonito, gente pequena, serviçais, súditos de minúsculos e ignorantes “deuses.”

Voltei porque todos nós adoecemos. Voltei para sepultar os poucos meus que restaram… Voltei para ver que os coronéis, apesar de serem outros, ainda habitavam a cidade – em Portugal ela seria de médio porte -, e os vassalos tinham novos rostos, mas davam continuidade ao passado. Voltei para enxergar que o cenário, mesmo não sendo o de antes, continuava sendo habitado pelo continuísmo imoral.

Não posso retornar. O tempo nos adoece e cava a nossa sepultura. Mas consigo transitar entre a indignação e a observação. Fico olhando de longe a terrícola tão antiga, tão sem profundidade, tão rasa e por isso tão cheia de escravos, de capachos… de ínfimos coronéis!

Alda Alves Barbosa

Ando devagar

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Há décadas ando devagar… Um arrasto cansativo, uma espera dolorida de quem precisa chegar. Chegar… Não sei onde desejo chegar, mas sei que não desejo ficar.

Preciso ir, mesmo que seja devagar; cada passo um arrasto… Mas já dei um passo, desplantei-me do chão num impulso do passo..

Fico a pensar onde preciso ir… mas que importância tem onde ir? O importante é ir.

Não tenho pressa para chegar mesmo porque não sei onde desejo chegar.

Minha alma deseja o voo, mas perdi minhas asas ou cortaram-na. Não tenho certeza se foi uma coisa ou outra, sei que estou amputada… e eu me arrasto com os pés no chão, aterrizada… ou aterrorizada?

Alda Alves Barbosa

Entardecer

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O entardecer tirou do meu olhar o luzir do sol… Nas noites estelares minhas vistas não alcançam o brilho intenso das estrelas… As fomes de amor desvaneceram! Não sinto necessidades de abraços, mas sinto o frio penetrando em minha carne, em meus ossos frágeis.
Não há mais horizontes para transpor. O que eu sou era o que tinha de ser. Nada mais há para ser. Meus sonhos diluíram com o tempo… sonhos líquidos que escorreram entre meus dedos à procura de fios d’água para desaguar.
Meus jardins, nos ontens floridos, hoje são apenas pétalas estioladas forrando o chão.
O chão… a terra… o pó…

Alda Alves Barbosa