Confissões

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 Quando aqui cheguei, Unaí ainda tateava na escuridão de seu nascimento. Tateávamos. Eu, expulsa do útero materno, ela liberta do julgo de Paracatu lutava para manter-se viva na pós-escravidão. E, esta luta à procura de caminhos e de claridade sempre foi o laço que nos uniu.

Costumo fechar os olhos para abrir minha memória e ver minha cidade tal qual era: o casario bonito de tia Mariana e dindinho Filadelfo, a beleza triste da residência dos Rangel, a igrejinha de Nossa Senhora da Conceição, o Bar Velho, o Bar Novo… poucas ruas, largas… Poeira vermelha para dar e vender, e quando as chuvas abundantes molhavam o cerrado, a poeira se transformava em lamaçal. Andar pelas ruas exigia equilíbrio. Pobres moças vaidosas! Cambaleavam em cima dos seus sapatos de saltos altos… Acrobacias necessárias.

Unaí era um verdor pela quantidade de árvores do cerrado ainda intacto e pelos quintais coloridos pelos pés de mangas, carambolas, jabuticabas, jatobás, goiabas, cajus, tamarindos, bananeiras, laranjeiras… flor da laranjeira, virgem flor!… Tudo isso desapareceu com os loteamentos para edificar novas moradias. Tudo acabou! Todos se foram!

Meu encanto maior era o tapete de folhas forrando o chão do cerrado, cheio de frutos, de flores tímidas, de pássaros, e de cobras. Pássaros destemidos. Faziam seus ninhos ao alcance de nossas mãos. Desconheciam a crueldade da meninice!

Menti. Meu encanto maior era o Rio Preto! Águas rasas, profundas… Águas escuras para clarear as roupas… um dedo de prosa com Ana e Otília… A vida, a morte… Todas se foram!

Naquele tempo a vida não variava. Tudo era igual, repetível! As janelas não existiam!

       Alda Alves Barbosa

Mural:

Ecos do cerrado

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ECOTURISMO DO VALE DO URUCUIA

Rio Urucuia 11

 

 

 

 

 

 

 

 

O Vale do Urucuia leva o nome deste grandioso rio, principal cursor d’água da cidade de Buritis-MG, afluente do Rio São FranciscoPAISAGENS INDICADAS PARA A PRÁTICA DE ESPORTES RADICAIS.
CACHOEIRAS
Cachoeira do Urucuia

Cachoeira do Urucuia

 

Uma cascata com um grande volume de água e extenso comprimento do rio.

Cachoeira do Retiro

Cachoeira do Retiro - Buritis

Conhecida também como Cachoeira de Dona Nazinha. Proprietária da pousada Monte Horebe – Oferece belezas naturais, descanso e lazer. Esta cachoeira é considerada uma das mais altas dentro do município de Buritis, possuindo cerca de  110 metros de altura. Fica a 14 km da cidade de Buritis-MG.

Cachoeira da Barriguda

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Localizada há 35 Km da cidade de Buritis, possui 120 metros de altura o que favorece a prática de rapel. São cerca de 700 metros de caminhada da sede até a cachoeira. O proprietário oferece área de camping, quiosque com churrasqueira, comida típica e bebidas.

Cachoeira da Jiboia

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A mais alta cachoeira catalogada na região, medindo 144 metros de altura. A Cachoeira da Jiboia é um dos principais pontos turísticos, localizada  na divisa de Unaí e Uruana de Minas. Fica a 90 Km de Unaí e a 110 Km de Buritis. Esta magnífica obra da natureza é aberta ao público e o visitante pode parar o carro há poucos metros da queda d’água.

Cachoeira do Fetal

cachoeira do fetal

Saindo pela MG 400 com destino ao COOPAGO e ao distrito de Serra Bonita,  a Cachoeira do Fetal está localizada na chapada  à 60 km de Buritis-MG. O maior atrativo da cachoeira são suas várias quedas  que formam lindas cortinas d’água. Sua principal queda  tem cerca de 20 metros de altura. Por estar em propriedade privada  necessita de autorização prévia para seu acesso.

Além destas quedas d’água, o visitante pode aproveitar um refrescante banho na grande piscina natural com cerca de 8 metros de profundidade e grande volume de água.

Cachoeira do Buritizinho

Cachoeira do Buritizinho

Saindo da MG 400, sentido Brasília DF, esta cachoeira está a 25 Km da cidade, localizada na Serra Olhos Dágua. Com uma altura de 60 metros, a Cachoeira do Buritizinho oferece uma belíssima vista ao turista, cercada pela vegetação do cerrado local e das rochas que formam seus paredões. Trata-se de uma propriedade privada sendo necessária autorização para conhecê-la.

Cachoeira dos Confins

Cachoeira dos confins

Conhecida como uma das belas cachoeiras da região, a Cachoeira dos Confins é composta por três quedas, onde a principal delas tem uma altura de 50 metros e grande volume de água. Com uma imensa piscina natural de pequena profundidade na primeira queda d’água, o que pode impressionar mais o turista.

Localizada a 25 Km de Buritis-MG, saindo pela estrada de chão sentido a fazenda Panambi, a cachoeira fica dentro de uma propriedade privada. para chegar até a primeira e mais alta queda mais alta é necessário uma caminhada  com cerca de 03 Km pelo cerrado da região. O acesso pode ser feito também pelas partes de baixo das cachoeiras, pela estrada de chão com saída da cida cidade pelo Córrego Extrema.

CAVERNA

Lapa Bonita

Lapa Bonita

A segunda caverna, mais conhecida como Lapa Bonita, tem 800 metros de extensão e uma altura que pode chegar a 06 metros com grandes salões no seu interior. Esta caverna possui uma pequena entrada conhecida somente pelos seus proprietários, situada as margens do Córrego Riacho Morto.

Seguindo a rodovia , há  poucos quilômetros a frente das cavernas, encontra-se a lendária Charqueadas dos Baianos. A lenda diz que baianos assaltavam e enforcavam mercadores e boiadeiros que passavam pelo local. Existe ainda hoje a forca na Serra do São Domingos.

Alda Alves Barbosa – imagem e texto das trilhas Urucuianas – http://www.tvriopretoburitis.com,br

 

 

 

 

Igual a todos os dias

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Hoje
como ontem
não cerrei os olhos.
Pareço com o entardecer
do cerrado com suas tardes
braseantes …fogueira no céu…
Eterna vigília!

Canta pra mim uma canção
de ninar… Canta, meu moreno,
canta…Quero tanto dormir!

Alda Alves Barbosa

MAIS UM CAUSO DO CERRADO UNAIENSE

lampião E as chuvas no cerrado interromperam. O veranico começara. As muriçocas vampirescas encontravam sangue de sobra para se entupirem do alimento que elas apreciavam.

Nesta época dormíamos mais tarde… Nada havia para fazer no quente verão do cerrado. A luz elétrica – tomatinho – deixava de sombrear cedo da noite. Lamparinas e lampiões bruxuleavam nos cômodos das casas.

Enquanto isso, nós, as crianças, em meio à escuridão dos quintais, quebrada às vezes apenas pela beleza clara da lua, colocávamos nossos neurônios para funcionar à procura de algo para preencher o tempo – Alimentar as muriçocas antes do horário estava fora de cogitação.

Jovina, mulher grande, forte e só conversava com ela mesma, morava na casa de dindinho Filadelfo e tia Dasdores. Casa bonita, cheia de cômodos… Nenhuma casa na pequena Unaí comparava-se a ela. Linda e bem cuidada acolhia muitos que por ali passava. Jovina compareceu ou apareceu com seu sobrinho e ali se instalaram.

Jovina transitava entre a cozinha e seu quarto; pouco comparecia nos outros lugares da casa. Sempre usava saias compridas e franzidas, o que a aumentava mais horizontalmente.

E foi justamente num destes veranicos que nossas cabeças de crianças, para sair das mesmices, arquitetaram um plano: vesti a capa de couro de dindinho Filadelfo, na cabeça um chapéu de couro e juntas (não tenho autorização para citar nomes), rumamos para o porão.

Em cima ficava o quarto de Jovina. E minha voz trêmula – voz de gente do outro mundo – ecoou pelo espaço: – Jovinaaaaaa…. eu venho do mundo de laaaaaaaáôôôô – Vim lhe avisar que seu irmão vai morrerrrrrrrrêêê (não sabia que ela tinha irmão). E minha voz tenebrosa repetia… repetia… repetia… Ela, Jovina, sabedora que era eu, que éramos nós – já estava acostumada -, mandava-nos embora com pequenos xingamentos. Cansados da brincadeira fomos embora já dispostos a ser alimento das muriçocas.

No dia seguinte o irmão de dona Jovina , vindo de uma fazenda, chega à pequena Unaí num banguê – Estava muito ruim de saúde e faleceu.

Imaginem quem o matou? Imaginaram? Pois é… Ela realmente acreditou naquela triste brincadeira de criança que não tinha TV, Internet, celular… e só a lua clareava as ruas!

Alda Alves Barbosa

Galeria:

Belezas Celestiais

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Belezas Celestiais
Sim a esta luz intensa do cerrado
Luz ardente que penetra seus raios
nos pequenos arbustos esculturais
que pressentem sua chegada e erguem
seus braços para recebê-la.

Sim à luz pungente
perfeição transparente que
revela a claridade e espelha
a redenção do viver.

Sim a essa luz que brilha o
nosso olhar – Avidez celestial – Cor anil
ou de purpurina suntuosa, ou de
tons dourados que amorenam nossa pele.

Belezas celestiais do cerrado!

Alda Alves Barbosa

Fotografia: Fotografia: professormarcianodantas.blogspot.com – Cerrado brasiliense

Ritos

Grupo de crianças se reúne e faz pedidos aos “céus” (Foto: Reprodução/TV Integração) – Guiricema – Zona da Mata

Já adentrava para uns cinco meses que não chovia no imenso cerrado. O sol chapeava as pedras existentes no chão, arrancando faíscas no pico das serranias, onde a vegetação rasteira ainda existia. O sol impiedosamente queimava tudo com o seu fogo incandescente. O rio Preto não era mais um rio caudaloso, e a meninada fazia plantão nas “pedrinhas” para atravessar para a outra margem do córrego que há alguns meses atrás era um “mar de águas doce.” O arrozal do Senhor Irineu, plantado à margem esquerda do rio, antes, com suas folhas verdinhas, não passava de um mato seco amorenado pelo sol. O chão das margens, marcadas por infindáveis rachaduras, denunciava os difíceis amanhãs. “Vai faltar comida;” era o que se ouvia nas conversas nas janelas, portas e ruas quando o sol declinava para que a lua viesse diminuindo o calor e irradiando beleza do céu no nosso chão. Mas a pequena população não queria, naqueles dias, ver tanta formosura das estrelas e o universo todo pintado de azul; queria ver sim, nuvens escuras que denunciassem a proximidade das chuvas. “isto sim, era coisa bonita de se ver,” diziam, olhando pasmos para o céu estrelado.

Vera observava tudo e todos. As conversas entre os vizinhos/parentes não eram animadoras e, para amenizar o medo, ela corria para as “pedrinhas” e lá ficava olhando nas poucas águas as piabas sobrevivendo ao caos que se instalara nas suas moradas. Preferia estar no só a ouvir o determinismo desesperançado dos adultos: “Não tem jeito não, Deus se esqueceu de nós. Vamos morrer estorricados.”

Missas eram celebradas pedindo socorro a Deus, mas Vera não entendia nada que o padre falava. Era um homem grande que vestia vestido longo sempre na cor preta, o que realçava a sua pela alva. As bochechas vermelhas denunciavam uma alimentação boa em quantidade e qualidade, coisa rara no cerrado. “Deve ser por isso que a minha mãe quando comia muito abóbora com carne dizia: “comi que nem um padre.”

Ele, o padre, tinha um péssimo hábito; rezava a missa de costas; diziam que ele vinha de um lugar muito longe chamado Holanda. Falava tudo enrolado. Na hora do sermão ninguém entendia nada de nada. A missa era rezada numa língua estranha, o padre falava outra língua, e, nós fiéis do cerrado, outra. E quando ele, o padre, ficava de costas, então é que piorava tudo… aí é que ficava tudo incompreensível mesmo. Vera aproveitava o não entendimento para devanear, e nestes devaneios chegava ao céu e silenciosamente pedia a Deus que enviasse chuva para que tivesse alimento para sua gente, água para o seu rio cor de noite e beleza para o cerrado. Mas parecia que Deus não ouvia os seus gritos de socorro. Parece, porque os do padre ela tinha certeza que não. “Como Deus ia entender aquele palavreado confuso e, além do mais desprezava seu povo dando-lhes as costas?”

[…] E os dias sequenciavam numa secura só. O cerrado entrou na solidão das folhas se entregando à terra. Havia uma cruz no adro da Igreja Nossa Senhora da Conceição. Os moradores se reuniram como se esta fosse a última tentativa de socorro ao Supremo; cada um carrega em suas mãos vasilhas com água e no percurso da ponte até a igreja iam entoando cânticos religiosos pedindo piedade ao Divino. Já em frente à cruz, águas eram derramadas sobre ela; rito religioso para pedir clemência à necessidade mais premente do povo: a chuva no cerrado. Vera acompanhou tudo numa postura fervorosa de estar sendo ouvida pelo Altíssimo.

Ao longe, um relâmpago… um trovão… Devagarzinho as nuvens foram escurecendo e ficando mais próximas do chão. No alto, os raios riscavam os céus e os pingos grossos de chuva caíam na poeira deixando no ar o perfume de terra molhada. “A chuva lavava o cerrado e as almas preocupadas.” – Vera pensava, enquanto corria para casa. Eufórica e arquejante procurou por sua mãe que estava na cozinha fazendo o delicioso doce de ovos. Gritou: – Viu mãe, está chovendo; Deus ouviu nossas preces! Sua mãe olhou para ela e continuou a mexer o doce com a colher de pau. Nenhuma emoção em seu rosto, nenhum comentário, nenhum agradecimento a Deus, nenhum olhar para os céus!

Em seu quarto, ajoelhada, de mãos postas, Vera pedia a Deus para deixá-la sempre criança!

Alda Alves Barbosa – Do livro de contos “Travessias do Tempo”