Verborragia

caliandra flor

Neste pardo sertão ferido
Abriram sulcos amargos
Percorreram as curvas dos espigões
Arrasaram a terra
Que guardava o vale.

A terra fria desfaz o cansaço,
Abre a serra com mãos desesperadas,
Cavalgando montados nas nuvens
Para tirar do céu a paz.

Estas minhas palavras
São de uma época morta…
Eu sou testemunha desse falecimento
E revivo os ontens voando pelo cerrado
Buscando com a alma na brisa,
O canto do Rio Preto…

Para onde vais agora, meu chão?
Porque não deixam crescer, andar, prosperar?
Meu olhar mira a caliandra cor de sangue
Ininteligível verborragia… parlapatório…

Alda Alves Barbosa

Minhas, ou nossas fomes?

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Sim, sou eu essa mulher que debaixo do sol ardente, debruça sobre o asfalto quente para colher o lixo que alguém plantou.

Sim, sou eu essa mulher que sem nenhum receio, pede de maneira afável, que joguem o lixo no lixo.

Sim, sou eu essa mulher que muitos recebem com sorrisos benevolentes, quando peço-lhes que deixem a calçada livre para o povo unaiense passar!

Sim, sou eu essa mulher que se indigna quando decepam as poucas árvores do nosso cerrado, ou quando mutilam seus galhos, tirando-lhes a beleza verdejante.

Sim, sou eu que amo flores e derramo lágrimas na primavera unaiense – primavera sem cores, sem perfumes… amores imperfeitos.

Sim, são minhas estas lágrimas doídas que se juntam às águas do Rio Preto, com saudades dos peixes dourados, amarelos brilhantes como a luz das estrelas.

Sim, são minhas estas palavras… são meus estes olhos cheios de encantamento pelas esculturas que o tempo molda nas grutas, e que poucos têm a oportunidade de contemplar.

É minha essa fome de educação, de cultura, de flores, de sombras…

Nada é só meu… Nem os sonhos, nem os pesadelos. Temos em comum a esperança de uma evolução de mentalidade, para que aconteça uma verdadeira transformação em nossos hábitos.

A verdade é que sei que essas fomes não são só minhas, são nossas, e por isso acredito no despertar unaiense.

Alda Alves Barbosa