Confissões

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 Quando aqui cheguei, Unaí ainda tateava na escuridão de seu nascimento. Tateávamos. Eu, expulsa do útero materno, ela liberta do julgo de Paracatu lutava para manter-se viva na pós-escravidão. E, esta luta à procura de caminhos e de claridade sempre foi o laço que nos uniu.

Costumo fechar os olhos para abrir minha memória e ver minha cidade tal qual era: o casario bonito de tia Mariana e dindinho Filadelfo, a beleza triste da residência dos Rangel, a igrejinha de Nossa Senhora da Conceição, o Bar Velho, o Bar Novo… poucas ruas, largas… Poeira vermelha para dar e vender, e quando as chuvas abundantes molhavam o cerrado, a poeira se transformava em lamaçal. Andar pelas ruas exigia equilíbrio. Pobres moças vaidosas! Cambaleavam em cima dos seus sapatos de saltos altos… Acrobacias necessárias.

Unaí era um verdor pela quantidade de árvores do cerrado ainda intacto e pelos quintais coloridos pelos pés de mangas, carambolas, jabuticabas, jatobás, goiabas, cajus, tamarindos, bananeiras, laranjeiras… flor da laranjeira, virgem flor!… Tudo isso desapareceu com os loteamentos para edificar novas moradias. Tudo acabou! Todos se foram!

Meu encanto maior era o tapete de folhas forrando o chão do cerrado, cheio de frutos, de flores tímidas, de pássaros, e de cobras. Pássaros destemidos. Faziam seus ninhos ao alcance de nossas mãos. Desconheciam a crueldade da meninice!

Menti. Meu encanto maior era o Rio Preto! Águas rasas, profundas… Águas escuras para clarear as roupas… um dedo de prosa com Ana e Otília… A vida, a morte… Todas se foram!

Naquele tempo a vida não variava. Tudo era igual, repetível! As janelas não existiam!

       Alda Alves Barbosa

Mural:

Academia de Letras de Unaí e Região – ALUR –, após diplomação de seus Membros Fundadores, recomeça seus trabalhos

 

01 Foto Oficial

Dezessete escritores e poetas se reuniram no dia 05 de dezembro de 2015 para um momento histórico na cultura do Noroeste Mineiro: a Diplomação dos Membros Fundadores da Academia de Letras de Unaí e Região, evento que aconteceu na Câmara Municipal de Unaí.

A entidade foi fundada em 26 de março de 2015, sendo Alda Alves Barbosa eleita por unanimidade para ocupar a presidência da ALUR. A acadêmica Maria Helena de Souza Leitão, em seu discurso na solenidade de diplomação, afirmou que “JK fez 50 anos em cinco e Alda parece querer seguir os passos dele”, se referindo ao tempo recorde da fundação à diplomação, e com algumas conquistas para a Academia de Letras.

A luta pela criação da entidade foi iniciada pela escritora Alda Alves Barbosa, que há muitos anos milita na cultura unaiense, em contato com escritores de Unaí e região buscando o resgate e a valorização da arte e da cultura na região.

Mesa - Tenente Renato Noronha, Alda A. Barbosa, Dr. Marcos Tadeu, Francisca Peres e Ildeu Pereira

O evento iniciou com o registro da foto oficial. A mesa principal foi composta pelas autoridades presentes: Francisca Costa Peres, Secretária de Educação de Unaí, representando o prefeito municipal Delvito Alves; Ildeu Pereira da Silva, representando o CEPASA; a presidente da ALUR Alda Alves Barbosa; Renato Noronha, Tenente do 28º Batalhão da Polícia Militar de Unaí e o Dr. Marcos Tadeu, delegado geral de polícia.

A Presidente Alda Alves Barbosa iniciou a solenidade falando sobre a importância de desenvolver a cultura na região.  “O futuro da Academia de Letras de Unaí e Região – ALUR, nada valerá se o coração de todos os Acadêmicos não bater no mesmo compasso, se nossos olhares não vislumbrarem os mesmos horizontes. É nesse ritmo e nesta sequência que se construirá um futuro do qual as gerações sucessoras poderão se orgulhar do que fizemos da mesma forma que hoje, no agora, nos orgulhamos do passado ainda tão recente”, afirmou. E concluiu agradecendo: “Na pessoa de minha mãe, Ilda Alves Barbosa, de meu pai, Álvaro Rodrigues Barbosa, e de meus irmãos Zezé, Herval e Joacélia presto meu tributo”. “É como mulher, escritora, cidadã unaiense, que hoje, com a ajuda de Deus, dos unaienses, dos Bonfinopolitanos, dos Cabeceirenses, amantes das letras, e dos membros da ALUR, que confiaram na minha condição feminina para realizarmos juntos este sonho de transformarmos nosso sertão através da multiplicação das letras e do trabalho oriundo dela”.

Dona Maria Tôrres Gonçalves (in memoriam), professora, historiadora e escritora unaiense, foi eleita patronesse da ALUR. Maria Elena de Souza Leitão explanou sobre a importância do trabalho cultural da patronesse em Unaí e região. Em seguida, Maria de Fátima, neta de Maria Tôrres, fez um breve relato de sua vida com a avó e recebeu o certificado e a medalha da ALUR entregue pelo acadêmico Geraldo Magela da Cruz.

Receberam o “Diploma de Reconhecimento” pelo apoio e grande colaboração nos trabalhos da ALUR: Bordon Silvério Martins e Silva, na pessoa de sua advogada, Dra. Juliana Matos; Andreia Zulato Marçola e Luiz André Alves de Sousa.

Nunes de Souza

 

Representando todos os acadêmicos, falou o poeta Nunes de Souza, natural de Bonfinópolis de Minas, que enfatizou: “Hoje o momento é solene, de concretização de valores, de elevação da nossa cultura ao patamar do reconhecimento público merecido, e bem sabem os poetas que ‘a poesia pode tudo, o poeta quase’. Com essa concepção, hoje dia 05 de dezembro de 2015, sentimo-nos felizes ao ver que os sonhos que permearam as nossas mentes foram regados, trabalhados, chegando a esse momento máximo, com a coroação do nosso projeto, a diplomação dos seus acadêmicos fundadores imortais da ALUR”.

A solenidade, organizada pela “Monumental Cerimonial e Eventos” e conduzida pelo Mestre de Cerimônias, Lucian Grillo, foi regada pela boa música do Maestro Elias – saxofone – e Cléber – teclado. Um momento de cultura que evidenciou o comprometimento e a seriedade da ALUR com os escritores e o povo de nossa região.

Membros Fundadores Diplomados da Academia de Letras de Unaí e Região:

Presidente: Alda Alves Barbosa, cadeira 13
Alberto Tadeu Martins Ferreira, cadeira 19
Altair Ribeiro de Sá, cadeira 05
Ana Maria de Morais Carvalho, cadeira 18
Ana Paula Rodrigues Cardoso Mendes, cadeira 12
Cid Olímpio de Souza, cadeira  07
Ildeu Pereira da Silva, cadeira 17
Ivan de Souza Coimbra, cadeira 02 – Cabeceira Grande
Geraldo Magela da Cruz, cadeira 08
Gilmar da Silva Lima, cadeira 21
José Claudio Coimbra, cadeira  10 – Cabeceira Grande
José Nogueira Soares, cadeira  06
Maria Helena de Souza Leitão, cadeira 03
Ronair Pereira da Gama, cadeira 11
Sebastião Antônio de Melo, cadeira 14 – Bonfinópolis de Minas
Nunes de Souza, cadeira 16 – Bonfinópolis de Minas
Vanildes Menezes de Oliveira, cadeira 15

Galeria dos diplomandos

Galeria:

Porque te amo, Unaí

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Boca da Ponte

Ó doce e quente Unaí, nenhum braço, nenhuma mão pode constranger-te porque tu és livre. Se nossos pés tocam teu solo é com a tua permissão; ninguém ousa afirmar que tomou posse de ti.

Sim, tu és livre para permitir que o sol escaldante derrame teus raios ardentes sobre ti; tu és livre para tecer asas e voar como os poetas… Não permita, ó doce Unaí, que nenhum de nós que deita sobre teus seios subtraia o respiro e te sufoque com falsos abraços; não consinta que mãos impuras te acariciem com gestos desordenados, tristes…

E tu me diz: – Já cortaram-me as sombras, já extinguiram os meus negros frutos, já extirparam os meus cachos cor de ouro…
E eu te digo: – Cortaram-te, extirparam-te, deixaram-te nua, mas te resta o solo calcário, o Rio Preto e tuas asas!

Voa, doce Unaí! Segure nas asas do sonho e costure versos para ti! Quem não te vê como poesia não conseguirá tocar-te!

Alda Alves Barbosa

MAIS UM CAUSO DO CERRADO UNAIENSE

lampião E as chuvas no cerrado interromperam. O veranico começara. As muriçocas vampirescas encontravam sangue de sobra para se entupirem do alimento que elas apreciavam.

Nesta época dormíamos mais tarde… Nada havia para fazer no quente verão do cerrado. A luz elétrica – tomatinho – deixava de sombrear cedo da noite. Lamparinas e lampiões bruxuleavam nos cômodos das casas.

Enquanto isso, nós, as crianças, em meio à escuridão dos quintais, quebrada às vezes apenas pela beleza clara da lua, colocávamos nossos neurônios para funcionar à procura de algo para preencher o tempo – Alimentar as muriçocas antes do horário estava fora de cogitação.

Jovina, mulher grande, forte e só conversava com ela mesma, morava na casa de dindinho Filadelfo e tia Dasdores. Casa bonita, cheia de cômodos… Nenhuma casa na pequena Unaí comparava-se a ela. Linda e bem cuidada acolhia muitos que por ali passava. Jovina compareceu ou apareceu com seu sobrinho e ali se instalaram.

Jovina transitava entre a cozinha e seu quarto; pouco comparecia nos outros lugares da casa. Sempre usava saias compridas e franzidas, o que a aumentava mais horizontalmente.

E foi justamente num destes veranicos que nossas cabeças de crianças, para sair das mesmices, arquitetaram um plano: vesti a capa de couro de dindinho Filadelfo, na cabeça um chapéu de couro e juntas (não tenho autorização para citar nomes), rumamos para o porão.

Em cima ficava o quarto de Jovina. E minha voz trêmula – voz de gente do outro mundo – ecoou pelo espaço: – Jovinaaaaaa…. eu venho do mundo de laaaaaaaáôôôô – Vim lhe avisar que seu irmão vai morrerrrrrrrrêêê (não sabia que ela tinha irmão). E minha voz tenebrosa repetia… repetia… repetia… Ela, Jovina, sabedora que era eu, que éramos nós – já estava acostumada -, mandava-nos embora com pequenos xingamentos. Cansados da brincadeira fomos embora já dispostos a ser alimento das muriçocas.

No dia seguinte o irmão de dona Jovina , vindo de uma fazenda, chega à pequena Unaí num banguê – Estava muito ruim de saúde e faleceu.

Imaginem quem o matou? Imaginaram? Pois é… Ela realmente acreditou naquela triste brincadeira de criança que não tinha TV, Internet, celular… e só a lua clareava as ruas!

Alda Alves Barbosa

Galeria:

Fogo no rabo

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A beleza dourada se recolhia devagar. No chão da pequena Unaí alguns fios de ouro pintavam de amarelo a poeira vermelha. Um quadro belo e triste. Beleza da natureza aliada à morte do Filho de Deus. Nos anos de 1950 – Anos dourados – 1950 anos depois de Cristo, nossa cidade, ainda em tenra idade, já relembrava o sofrimento e morte de Jesus.

Dentro da Igreja Nossa Senhora da Conceição, todos os 12 passos foram visitados – a Via-Sacra: da condenação por Pilatos ao sepulcro. No adro da igreja, Lulu de Berto – aqui alguém era sempre de alguém – Vestida de preto, véu negro na cabeça (cor do luto), relembrava Verônica cantando com sua voz bela e emocionada uma música sacra. Enquanto seu canto ecoava pelo cerradão ela ia desenrolando suavemente com suas mãos uma das inúmeras réplicas esparramadas pelo nosso planeta do rosto de Jesus que ficara no tecido quando ela, a Verônica enxugara o rosto do Salvador. A emoção era intensa; poucos conseguiam não derramar lágrimas. Rememorar é acontecer novamente. Jesus sofreu e morreu outra vez. Haveria novo sepultamento. Estávamos sós. A presença Dele era espiritual. E essa ausência física do Salvador deixava todos nós no desamparo. A fé, só ela poderia nos sustentar. ‘ O cristão precisa-se se saber pecador, impotente, vulnerável. ’ Sabedor disto a fé aumenta.

Com as velas já acesas, a população ali reunida em duas filas indianas começara a procissão do Senhor Morto. Na frente um padre e Cândido (de vovó); este carregava uma cruz não tão pesada como a de Jesus. Não era momento de cânticos, nem orações… Todos estavam enlutados. Silenciosamente o féretro foi prosseguindo. Ouvíamos apenas o som dos nossos passos abafados pela poeira.

Um pouco distante, perto da Prefeitura Municipal, hoje Câmara dos Vereadores, um homem amarrara no rabo do seu cavalo – não tenho certeza se o cavalo pertencia a ele – uma lata contendo gasolina. Esperava pela procissão. E quando ela foi chegando… não pensou: ateou fogo na lata. O cavalo, apavorado com o fogo no rabo saiu em disparada em direção ao povo. Os fiéis, idosos, adultos e crianças corriam sem rumo procurando lugar para se esconder.

De longe ouvíamos as gargalhadas. O padre exasperado sacudia a batina e de sua boca saia em profusão palavras amaldiçoadas. Excomungava o ateu.
As gargalhadas continuavam!

Alda Alves Barbosa

Entre sóis e luas

Ó doce Unaí,
minha terra,
minha poeira,
meu poema!
Luz causticante
do dia; na noite
a beleza inteira
ou beleza metade
da brilhante lua.

Unaí das bocas de fornos,
bolos campineiros, bifes
acebolados, empadinhas
deliciosas, frangos cheios,
do arroz amarelo, da carne
seca, do pão de queijo e
doce de ovos…

Unaí da rua grande, da rua
do meio, da minha enamorada rua,
do beco de Ursulino e de Oscar Rangel.
Unaí dos puxa-facas,
mulheres de vida fácil
vida fácil tão difícil!

Unaí do Rio Preto, Rio Roncador,
das cachoeiras, dos córregos
e ribeirões; terra das grutas
e da Pedra do Canto.

Ó minha doce Unaí
saudade do seu cantar!

Alda Alves Barbosa

Galeria

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